sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Nodame Cantabile


Aproveitei as minhas férias para assistir a um anime que gostei muito, chamado Nodame Cantabile (のだめカンタービ). Resolvi falar um pouco dele aqui porque sei que algumas pessoas que leem meu blog gostam muito de música e acho que isso pode interessar. Ao contrário do que muitos imaginam, no Japão os desenhos possuem gêneros e são recomendados para diversas idades, não apenas para crianças. Nodame Cantabile se originou em um mangá de Tomoko Ninomiya voltado para o público adulto feminino (女性 "josei") e fala sobre a carreira profissional de diversos músicos; uma comédia musical.

Shinichi Chiaki é um estudante de piano da Universidade de Música Momogaoka, no Japão. Apesar de ser extremamente dedicado e talentoso, não pode sair do país para se aperfeiçoar. Seu sonho é se tornar um maestro de uma orquestra e prosseguir seus estudos com o famoso regente europeu Sebastiano Vieira, porém, toda a sua futura carreira é ameaçada por causa de seu temor de avião e navio, fazendo-o ficar estagnado no Japão. É assim que ele conhece Megumi Noda (Nodame), uma caloura de piano considerada uma aluna mediana e sem objetivos grandes em relação à música, pois deseja tornar-se professora do primário. Ele despreza o jeito displicente da moça tocar piano, fazendo recomposições e jamais se atendo à partitura, mas ele acaba se encantando pela sua musicalidade. Nodame se apaixona por Chiaki e ele acaba se encantando por sua personalidade desordenada, mas criativa. A relação dos dois faz com que um ajude o outro a alcançar objetivos maiores em relação à música e realizarem seus sonhos.


O anime se passa entre orquestras, competições e aulas de música. Chiaki conhece Stresemann, um famoso maestro alemão que é concorrente de Vieira, e acaba se tornando seu pupilo. Aos poucos, a carreira de Chiaki começa a se desenvolver e ele passa a não ser apenas um pianista (e violinista) talentoso, mas também um maestro em pequenas orquestras. 

Nodame Cantabile conta com mais duas temporadas em que as personagens vão a Paris estudar em um conservatório de música. Chamadas de Nodame Cantabile Paris-Hen e Nodame Cantabile Finale Além disso, a história de Nodame Cantabile virou um dorama, tipo de série de TV com atores. Ainda não terminei de assistir ao dorama, mas estou achando a sua comédia um pouco desmedida demais... 



Voltando ao anime, não preciso dizer que os principais atrativos dele são a trilha sonora e a história que envolve peças clássicas. A cada episódio, obras de compositores famosos são apresentadas e fazem parte do enredo, assim, sabemos de suas dificuldades, de sua história de composição e de diversas outras informações interessantes na perspectiva do estudante. Para os entusiastas de música, esse é o anime ideal para acompanhar suas obras favoritas. Fazem parte dela, Mozart, Bach, Rachmaninoff, Debussy, Ravel, Chopin... e tantos outros compositores famosos! 

Um dos aspectos que mais admirei em Nodame Cantabile é que as obras foram realmente pesquisadas e feitas para um público que conhece e gosta de música erudita. Um dos exemplos disso: os espectadores mais atentos devem ter percebido que a música de abertura de Nodame Cantabile Paris-Hen é baseada no tema do terceiro movimento "Allegro Scherzando" do Concerto nº2 para piano de Rachmaninoff:


É claro que se trata de uma homenagem, não de uma cópia, especialmente porque o Concerto nº2 para piano de Rachmaninoff aparece na primeira temporada como uma parte importante do enredo. Na abertura, disfarçadamente, deleita os fãs!

Caso estejam curiosos, é possível assistir ao anime online e com legendas em diversos sites na internet, basta procurarem pelo título. São quase cinquenta episódios, mas agora que acabou estou sentindo muita falta! 

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Resenha: O estrangeiro em quadrinhos


O estrangeiro em quadrinhos é uma adaptação da clássica e muito conhecida obra do autor argelino, Albert Camus. Adaptado pelo artista também argelino, Jacques Ferrandez. É uma graphic novel bastante fiel ao romance de Camus, belamente ilustrada em aquarela. Trata-se da conhecida história de Mersault, que logo depois de perder a mãe, envolve-se em uma briga com árabes e acaba sendo encarcerado por assassinar um deles na praia.

O romance abrange o tema do absurdo, e mostra a falta de sentido na vida. O protagonista Mersault é um homem desinteressado que perde a mãe e é culpado pela vizinhança por tê-la colocado em um asilo. Logo após o velório, reencontra Marie, sua namorada, e os dois vão à praia, ao cinema e ele mantém um comportamento que não condiz com alguém que acabou de perder a mãe, pois ele parece não entender o significado disso. Nesse sentido, Mersault é bem sincero e se recusa a mentir ou fazer parecer aos outros uma sensibilidade que não possui, simplesmente porque fica perplexo com o absurdo existencial. 

O grande momento do romance acontece na praia, sob o sol escaldante da Argélia. Mersault envolve-se em uma briga de seu vizinho Raymond com árabes. Ele não possuía absolutamente nada contra o bando, mas em um certo momento, o Sol da Argélia teve um papel decisivo sobre a mente dele e ele acabou baleando várias vezes um árabe que tentava atacá-lo. A cena em si é um absurdo, pois ele mata um homem em uma briga que não era sua e sem muita razão. O Sol, nesse momento, torna-se uma das personagens do romance, pois é ele que desencadeia toda a tragédia que acontece a partir desse momento. 


A partir de então, começam-se os absurdos institucionais. Mersault é condenado por assassinato a sangue frio de um árabe. Em seu julgamento, em vez de se discutir o crime, apenas os pormenores de sua vida pessoal são discutidos. Aquilo que comove a justiça e convence a população da atrocidade de seu crime não foi o tiro, mas o fato de ser insensível à morte da mãe, de ter ido à praia e namorado após sua morte e ter inescrupulosamente internado-a em um asilo. Além disso, o fato de não se inclinar a um deus, ou ao menos fingir acreditar. 

Para o leitor, a condenação de Mersault é revoltante, porque o autor faz com que ele tenha uma punição muito maior que deveria por motivos absurdos. O livro é uma denúncia à falsidade da sociedade e às regras morais que são esvaziadas de sentido. Todos aqueles que acompanham as notícias de crimes irão reconhecer os fatos do livro como espelho da realidade e da manipulação da justiça e da mídia. Como exemplo, eu posso apontar os assassinos que passam a ser considerados bonzinhos após começarem a pregar em alguma religião, ou então aquele réu que passa a ser metralhado pela mídia que o acusa de fatos que vão muito além do crime pelo qual está sendo julgado. 


Jacques Ferrandes, assim como Albert Camus, também nasceu na Argélia. Talvez seja por isso que ele conseguiu captar tão bem esse romance solar de Camus. Além das paisagens e do local parecerem bem verossímeis com os do livro, a cena em que o Sol aquece e perturba Mersault, o fazendo atirar várias vezes no árabe é muito realista e convincente.

A adaptação de livros para quadrinhos deve ser mais do que apenas um "facilitador" da leitura - geralmente, obrigatória - de um clássico, mas uma releitura e o novo olhar e um artista sobre uma obra literária. Nesse sentido, O estrangeiro desenhado por Jacques Ferrandez atende à minha expectativa e mostra uma visão que me fez ter um contato diferente com o clássico de língua francesa tão conhecido e relido, O estrangeiro de Camus.

Livro enviado pela Companhia das Letras:
FERRANDEZ, Jacques. O estrangeiro, baseado na obra de Albert Camus. Trad. Carol Bensimon. São Paulo: Quadrinhos na Cia., 2014. pp.144.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Festa do livro da USP, 2014


Em dezembro de 2014 aconteceu mais uma Festa do Livro da USP. Eu frequento esse evento todos os anos, desde 2005, ano em que comecei minha graduação. Em 2013, eu fiz um post sobre os livros que comprei e hoje eu venho mostrar os livros que comprei em dezembro e que serão minha meta de leitura de 2015. Pretendo ler todos os livros que comprei ao longo do ano e evitar comprar livros sem ter lido esses primeiro.. sei que é difícil, mas estou tentando me controlar um pouquinho. 

Como vocês podem ver na foto acima, eu comprei os lindos clássicos da editora Zahar, em tamanho normal e capa dura. Os livros são lindos e as lombadas são maravilhosas. Eu ainda estou em dúvida quanto à tradução, especialmente do livro do Teatro Grego, mas preciso ler para ver o que eu acho. São eles: 

1. Alice, de Lewis Carroll;
2. Contos de Fadas, vários autores;
3. O mágico de Oz, de L. Frank Baum;
4. Peter Pan, de J.M. Barrie;
5. O melhor do teatro grego, de Sófocles, Esquilo, Eurípides e Aristófanes;


2015 também vai ser o ano de ler Valter Hugo Mãe. Eu assisti a uma entrevista com o escritor e li um pouco do que ele escreve, isso me deu uma vontade imensa de ler seus livros. Eu adoro literatura portuguesa e tenho certeza que vou gostar de lê-lo. Eu comprei todos os livros que encontrei dele na CosacNaify:
6. O filho de Mil Homens, de Valter Hugo Mãe;
7. A máquina de fazer espanhóis, idem;
8. A desumanização, idem;


Além disso, comprei diversos livros de literatura de várias editoras, como Companhia das Letras, Ed. 34, e Cosac Naify. Eu já li dois desses livros, Alta Fidelidade e As flores de As flores do mal de Baudelaire, mas o restante deve ser o que guiará minhas leituras deste ano. No momento, estou passando minhas férias lendo o espetacular Oblómov, que conta a história de um homem muito pacato e preguiçoso. Fiquei muito feliz por conseguir encontrar essa edição linda de Lolita da Alfaguara (agora Cia. das Letras) e de finalmente comprar para ler Os anos de Aprendizado de Wilhelm Meister, que foi o romance que deu origem ao gênero de "romance de formação", como vocês podem ver aqui. E olhem a edição especial de Laranja Mecânica! Lindíssima por dentro e por fora!

9. Alta fidelidade, de Nick Hornby;
10. Lolita, de Vladmir Nabokov;
11. Oblómov, de Ivan Gontcharóv;
12. Laranja Mecânica, de Anthony Burgess;
13. Um útero é do tamanho de um punho, de Angélica Freitas;
14. Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister, de Johann Wolfgang von Goethe;
15. As flores das Flores do Mal de Baudelaire, traduzido por Guilherme de Almeida;


Por último, quero mostrar meus livros de teoria literária e de filosofia que comprei para meu auxiliar nas leituras e análises que faço. Eu já li o ABC da Literatura, de Ezra Pound, e trata-se de um compêndio sobre o essencial que se deve ler da poesia mundial para se tornar um escritor. Além disso, comprei finalmente o livro A literatura portuguesa, de Massaud Moisés, que é um excelente livro de referência para toda a história da literatura de Portugal. Eu costumava sempre consultar esse livro na biblioteca e fazia muita falta ter uma cópia dele aqui em casa. E, finalmente, Metafísica do Belo, que é um livro de Schopenhauer que eu comprei para entender melhor o espírito do decadentismo do final do século XIX e sua relação com o belo e a arte (como falei no post sobre Às avessas, de Huysmans).

16. Abc da literatura, de Ezra Pound;
17. Metafísica do Belo, de Arthur Schopenhauer;
18. A literatura portuguesa, de Massaud Moisés.

Esses foram os livros que comprei e devem ser lidos ao longo deste ano! 18 no total, um pouquinho a mais do que no ano passado, mas acho que fui muito contida e acabei não comprando vários outros porque alguns dos livros que estavam na minha lista já tinham esgotado. 

sábado, 3 de janeiro de 2015

Leituras que fiz em 2014


Quando se trata de leitura, convivo com uma certa contradição dentro de mim: por um lado, quero ler, aproveitar e degustar cada livro para nunca o esquecer; por outro, eu quero ler como se não houvesse amanhã com medo de não conseguir dar conta de todos os livros que pretendo ainda ler e reler. Em 2014 eu li muitos livros, mas não tantos a ponto de não conseguir refletir sobre cada um deles e conseguir digeri-los.

No ano passado eu criei uma pequena tag para organizar as minhas leituras do ano que passou. Esse ano, decidi responder às mesmas perguntas referentes a tudo o que li no ano passado e dividir essa minha experiência de leitura com vocês:

1. O melhor livro do ano de 2014:
Eu comecei o ano de 2014 terminando de ler os dois últimos livros de Em Busca do Tempo Perdido. O último livro da série, chamado de O tempo reencontrado, foi o meu livro favorito do ano. Vocês sabem como Em busca do tempo perdido é importante para mim e falei um pouco sobre os livros aqui. Além desse, eu também adorei ter lido Fahrenheit 451, de Ray Bradbury.

2. O livro que mais surpreendeu durante a leitura:
O livro de contos O Aleph, de Jorge Luís Borges. A surpresa aconteceu porque eu nunca havia lido nada do autor e encontrei nele um mundo mágico com diversas referências mitológicas que significaram muito para mim. Eu chorei lendo e relendo alguns contos desse livro. Eu destaco os contos "O imortal" e "A casa de Astérion".
Também me surpreendi com o livro A última névoa de Maria Luisa Bombal (resenha aqui), e Teoria Geral do Esquecimento, de José Eduardo Agualusa.

3. O pior livro lido em 2014:
Eu tive sorte e não li nenhum livro extremamente ruim em 2014. Apenas achei um pouco ruim a produção de contos de Florbela Espanca, que é minha poeta favorita, em Afinado Desconcerto.

4. Houve alguma decepção literária?
O amante de Lady Chatterley, de D. H. Lawrence. Eu comprei uma linda edição porque eu tinha ouvido falar muito bem desse livro, mas eu comecei a lê-lo e fiquei chocada com a quantidade de preconceito envolvida na escrita da história... e não consegui superar. Cheguei ao fim, mas não imaginava que um livro tão preconceituoso e com uma visão tão mesquinha fizesse tanto sucesso.

5. Quantos foram os livros lidos durante o ano?
Eu li 47 livros por lazer (sem contar os da escola) e alguns quadrinhos. Exatamente a mesma quantidade que li no ano passado! 

6. Quais foram os gêneros literários lidos ao longo do ano?
Eu li muitíssimos romances, contos e novelas; alguns ensaios e textos críticos; poucos poemas... e nenhum teatro! É uma pena, porque eu adoro ler teatro e acho que tenho que enfatizar mais esse gênero no próximo ano.

7. Alcançou a meta estabelecida de leitura para 2014?
Eu tinha feito minha meta aqui e acho que me saí bem. Eu consegui ler a maioria dos livros de literatura que comprei na festa do livro, mas também comprei e li muitos outros que não estavam na lista. Li mais alguns livros de Clarice Lispector, mas eu não consegui ler Lígia Fagundes Telles, exceto por alguns contos famosos... eu comprei um livro dela, mas ele ainda não me chamou. 

8. Escritor(a) mais lido durante o ano:
O escritor dos livros que mais li foi Jorge Luís Borges. Eu pretendo continuar a ler seus livros, porque sua escrita me entusiasmou como poucos escritores já fizeram.

9. Planos de leitura para 2015:
Eu pretendo seguir no mesmo ritmo de leitura e ler muitos livros. Eu também pretendo resenhar os livros que mais gostar e publicar aqui no blog. Eu pretendo ler os livros que comprei em dezembro na Festa do Livro da USP (ainda vou fazer uma postagem sobre isso!). Além disso, eu quero ler alguns clássicos publicados pela Penguin - clothbound classics. Meu foco tem sido a literatura do final do século XIX e começo do século XX, então pesquisarei mais escritores dessa época também! 

Como foi o ano de vocês em relação aos livros e à literatura? Algumas dicas e sugestões? Vocês podem acompanhar minha leitura detalhada através do meu perfil no Skoob

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Um ano novo começou!


Esvaziei a mente no mar e preenchi meus pensamentos apenas com sensações e luzes; com as tais impressões que sustentam alguém que prefere viver nas nuvens. Metas estragam meus dias e criam expectativas, portanto, para o meu bem eu decidi olhar a manhã e prosseguir. Eu não tenho grandes anseios para esse ano e ainda assim há algo dentro de mim que sabe que é dessa forma que as melhores coisas acontecem.

Desejo a todos um ótimo 2015!!! 

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Debussy e o impressionismo

Debussy negava-se o título de um músico impressionista, mas é fato que suas composições diferem grandemente da produção musical europeia até então. Músico do final do século XIX, Debussy (1862-1918) participou das inovações artísticas que aconteceram no final daquele século, que foi uma época inovadora para a pintura, música e literatura e que anunciava já os caminhos do modernismo. Como influencia artística no clima cultural da época, todas essas diferentes artes sofreram influências semelhantes do mesmo espírito decadentista e possuem, por isso, semelhanças entre si.

Em sua época, foi dado a Debussy o título de músico impressionista, pois compararam a sua nova musicalidade às inovações na área da pintura. Em Monet, a pintura não procurava ser a representação fidedigna de uma paisagem, mas alcançar o sentimento mutável de um determinado momento do dia; as luzes eram exploradas para mostrar a perenidade e a beleza de cada momento. O impressionismo é o retrato das impressões (de luzes, cores e sensações) captadas pelo sentido. Como podemos ver nessas diferentes representações da mesma catedral em diversos momentos diferentes:

Catedral de Rouen ao pôr do sol, à luz do sol e em meio à névoa, Monet.

A pintura impressionista mostra subjetivamente a passagem do tempo e a efemeridade, através da exploração da luz. É uma pintura que não possui grandes contrastes e o tema é enfraquecido, já que existe apenas uma “sugestão”.

Para ir contra o estilo romântico wagneriano que imperava na música do século XIX, Debussy inova a sua música com efeitos próximos ao impressionismo na pintura, mas utilizando a matéria sonora. Dessa forma, suas composições não possuem contrastes violentos, e utiliza – no lugar de luzes e cores – harmonias e timbres diferentes para explorar os sentidos.

O que é impressionista em Debussy não é temático, mas ele acontece através do som. Por exemplo, existe o uso da surdina para abafar o som e há a fuga das harmonias tradicionais. Além disso, os seus temas são curtos e sem desenvolvimento (compare com o tema de uma música de Bach, por exemplo). Isso faz com que sua música privilegie os sentidos, seja fugidia e fluida.

A música de Debussy conversa muito com a literatura também. Ele compôs algumas obras inspiradas em poemas simbolistas, como o famoso Prélude à l’après-midi d’un faune (Prelúdio à tarde de um fauno), baseado no poema “L’après-midi d’un faune” de Stéphane Mallarmé. Esse poema sinfônico foi considerado o início da música moderna. Não se trata de uma música que encena cada trecho do poema, mas que passa uma impressão geral.

L'après-midi d'un faune - A tarde de um fauno
de Stéphane Mallarmé (1842-1898)

O fauno:
Estas ninfas quero eu perpetuar.
Tão puro,
o seu claro rubor, que volteia no duro ar
pesando a sopor.
Foi um sono o que amei?
Massa de velha noite, essa dúvida, sei,
Muito ramo subtil estendendo,
provava
meu engano infeliz, que enganado
tomava
por triunfo, afinal um pecado de rosas.
Reflitamos.
(...)

Além dessa, outra famosa obra de Debussy é La Mer (O mar). Muito semelhante aos quadros de Monet que estão acima, neste o compositor não pensa em imitar sons do mar, mas cada movimento mostra as impressões que tem sobre ele:

  1. De l’aube à midi sur la Mer (Da alvorada ao meio dia no Mar) – muito lento;
  2. Jeux de Vagues (Jogos de Ondas) – Allegro;
  3. Dialogue du Vent et de la Mer (Diálogo do Vento e do Mar) – Animado e tumultuoso.
Sendo assim, apesar do compositor negar-se de usar o título de "impressionista", a sua música possui muitos paralelos com o impressionismo porque era essa a corrente artística que pairava sobre a Europa e acabou por influenciar diversas formas de arte, pois a arte não precisava simplesmente imitar o real.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Resenha da biografia Pagu: vida-obra


Hoje vim falar do livro Pagu: vida-obra, a biografia de Patrícia Galvão feita pelo poeta Augusto de Campos. Mais conhecida como Pagu, ela foi a mais polêmica mulher do modernismo brasileiro e sofreu um repúdio muito grande da sociedade, por suas visões esquerdistas e sua postura moderna para a época em relação a comportamento, sexualidade e expressão de moda. Ela seria considerada moderna mesmo agora, quase cem anos depois!

Ela só possuía 11 anos quando a Semana de Arte Moderna (1922) aconteceu, mas aos 18 anos já estava envolvida com o grupo da primeira geração do modernismo e aproximou-se bastante de Tarsila do Amaral, quem admirava muito, e Oswald de Andrade. Ela viveu esse período de efervescência artística e chegou a participar da revista modernista do Movimento antropófago. Aos 19 anos, acabou se casando com Oswald de Andrade. Ambos realizaram o pasquim O homem do povo, jornal polêmico que foi fechado em poucas semanas.

Em seguida, Pagu envolveu-se com o Partido Comunista e é presa diversas vezes. No total, Patrícia é presa 22 vezes por motivos políticos. Também se desilude com a política e busca se tornar crítica literária a favor de uma literatura que dê liberdade ao artista, sem precisar se tornar propaganda partidária ou ideológica.


Revolucionária modernista, Pagu se revolta com o conformismo e o apaziguamento do fervor revolucionário da primeira geração modernista, que se acalmou mesmo nos poetas que participaram dessa geração e faz críticas rígidas a esses grandes poetas brasileiros em revistas da época.

A biografia feita pelo poeta Augusto de Campos é muito interessante e inovadora porque não contém apenas fatos de sua vida e fotografias, mas um “caleidoscópio bibliográfico”, ou seja, um compêndio de artigos a respeito da artista, críticas dela e sobre ela, além de trechos de toda a sua produção artística e literária, para que o leitor possa reviver a figura de Pagu e prestar mais atenção em sua obra tão apagada pela atenção dada à sua figura polêmica. Destaque para o trecho de seus dois romances: Parque Industrial (1932) e A Famosa Revista (1945). Além disso, é inovadora a biografia feita por um poeta, porque contém até um resumo de sua vida escrito poeticamente.

Pagu: vida-obra porque, afinal, a própria vida de Patrícia Galvão, chamada de “musa do modernismo brasileiro” foi vivida artisticamente. Sua vida se confunde com sua obra e sua obra, com a vida.

Campos, Augusto de. (1982) Pagu: vida-obra. Companhia das Letras: São Paulo, 2014. pp.472.


Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...