domingo, 8 de junho de 2014

Recomposição de As Quatro Estações de Vivaldi por Max Richter


Gostaria de mostrar aos leitores do meu blog uma descoberta musical que fiz enquanto escutava minha rádio favorita. Fui surpreendida por uma melodia viva, que levemente lembrava a conhecida Primavera de Vivaldi. Pesquisei e descobri que se tratava de uma recomposição d'As Quatro Estações feita pelo compositor alemão Max Richter. Podemos nos perguntar qual a razão para alterar uma obra que em si já é perfeita, mas Max responde "(...) esse trabalho é sobre reivindicar essa música para mim, entrando dentro dela e descobrindo-a por mim mesmo - e enveredar por um caminho novo através de uma paisagem conhecida.". Esse retorno é uma característica comum das produções contemporâneas em todas as artes e isso acontece porque a revisitação traz novos significados e novos olhares, como é o caso da recomposição que Max Richter fez da mais famosa obra de Vivaldi.

As Quatro Estações (Le quattro stagione) de Vivaldi é, sem sombra de dúvidas, a música erudita mais conhecida pelas pessoas. Inclusive por quem não gosta e não ouve esse tipo de música, porque ela é mundialmente conhecida através da publicidade e em toque de espera de telefones. Consigo entender o motivo do sucesso, porque As Quatro Estações é realmente linda e cada movimento traduz com muita perfeição as mudanças e peculiaridades de cada época do ano. Entretanto, conseguiram deixar a música banal aos nossos ouvidos e, de tanto ouvir em lugares aleatórios, não conseguimos mais parar e perceber a beleza da música. Ela se tornou automática e nós já a adivinhamos antes mesmo de ter ouvido a próxima nota.

Antonio Vivaldi (1678-1741) foi barroco e seus concertos fizeram parte das principais invenções musicais desse período. O compositor escreveu cerca de 500 concertos. As quatro estações são compostas de quatro concertos solo, ou seja, um único instrumento que se sobrepunha a toda uma orquestra de cordas. Eles eram compostos de três movimentos: rápido, lento e rápido. Notamos que cada uma das quatro estações corresponde a um concerto com três movimentos cada. Como sabemos, cada movimento ajuda a construir sons que nos fazem pensar em características de uma estação. Por exemplo, no Concerto nº2 em Sol Menor "L'estate (Verão)", vemos a famosa tempestade surgir no nosso imaginário no último movimento, presto. A obra de Vivaldi ficou na obscuridade por muito tempo e apenas no século XX que passou a ser conhecida (e reconhecida). Ironicamente, hoje ela é tocada à exaustão.


A versão de Max Richter manteve a estrutura tradicional dos concertos de Vivaldi, mas cada movimento possui sua versão reconstruída. Os sons tão conhecidos passam a ser inesperados a ponto de não conseguirmos adivinhar a mudança que o compositor fará a seguir. Quando nos acostumamos com uma parte famosa, acontece uma mudança brusca ou uma retorno inesperado. A releitura nos tira da zona de conforto e nos faz ouvir a música como se fosse nova. Assim, a bela composição de Vivaldi readquire seu valor que estava desgastado aos nossos ouvidos. Essa reconstrução não altera apenas a nossa percepção da música, mas nos faz ouvir a obra original como se fosse a primeira vez. Portanto, a reconstrução de Max Richter acaba sendo uma grande homenagem à principal obra de Vivaldi. 

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Resenha: Esta valsa é minha, de Zelda Fitzgerald


Resolvi ler Esta Valsa é Minha (Save me the waltz, 1932), romance da Zelda Fitzgerald (1900-1948), porque fiquei muito curiosa a respeito da figura dela quando li o livro de memórias do Ernst Hemingway, Paris é uma festa, em que ele conta a vida dele em Paris e seu convívio social com os artistas da época. O autor conhecia o casal e admirava muito a escrita de Scott Fitzgerald, porém, era muito cruel ao relembrar de Zelda Fitzgerald. Segundo ele, a mulher era a grande responsável pela baixa produção de Scott, pois ela sentia ciúmes da literatura do marido e fazia com que os dois levassem uma vida desregrada para que não sobrasse nenhum tempo para a escrita. Isso me deixou bastante curiosa em relação ao casal, porque eu já havia lido um livro de Scott Fitzgerald, O grande Gatsby, e gostaria de saber mais sobre eles.  
Esta valsa é minha é o único livro escrito por Zelda Fitzgerald. Foi escrito nas seis primeiras semanas de sua estadia em um hospital psiquiátrico. O romance é quase autobiográfico e conta a história de Alabama, filha de um juiz sulista, que é muito moderna. Conhece o pintor David Knight e se muda para Nova Iorque, vivendo de uma forma romântica e desregrada. Eles têm uma filha, Bonnie, e mudam-se para a França para incentivar a produção artística do marido. Lá, Alabama passa a frequentar a sociedade boêmia parisiense, muitas festas, e torna-se uma mulher entediada que vive às sombras do marido. Sendo assim, ela resolve que deve parar de desperdiçar sua vida em festas e  começa se dedicar a uma arte. Sendo assim, ela procura uma academia de dança de uma professora russa e passa a se dedicar integralmente - e obsessivamente - às aulas de ballet.
Zelda Sayre Fitzgerald como bailarina

A protagonista passa a ser duramente criticada como mulher por resolver se dedicar a uma paixão, ao invés de passar as tardes em casa cuidando da família. Ela é desencorajada pelos amigos, que insistem de que nada adianta uma mulher feita se dedicar ao ballet e que isso não levaria ela a nenhum lugar; o marido David também a desencoraja dizendo que o artista da família era ele e ela não deveria perder tempo com isso, e seria melhor se ela voltasse a frequentar as festas e a cuidar da filha e da casa. As próprias colegas do ballet não conseguem entender o porquê de Alabama perder seu tempo se dedicando a essa arte já que ela possuía um marido e - pressupostamente - não precisaria de mais nada.
Claramente, o livro parece autobiográfico porque Alabama representa Zelda e David é o nome dado ao personagem de Scott. Celebridades da era do Jazz, as histórias vividas pelo casal são bastante semelhantes com a vida deles. Zelda, inclusive, realmente se dedica ao ballet depois de adulta, mas não prossegue com seu sonho, como a personagem.
Conseguimos entender melhor Zelda através desse livro e ir contra a sua descrição por Hemingway porque ela foi uma mulher talentosa e moderna, mas que tinha suas vontades impossibilitadas por ser mulher e viver à sombra do marido famoso. Sendo assim, podemos desconfiar de que não se trata de uma esposa má com ciúmes da literatura e do sucesso de Scott, mas uma mulher que tinha todo o talento e possibilidade de se mostrar, mas que era impedida e obrigada a apenas apoiar o outro.
Literariamente falando, fiquei surpresa com a escrita dela, por ser seu único livro. Escrita fluida, que mostra bem o clima da época em que viviam, como acontece com todos os livros de seu marido. E gostei bastante do título do livro, Esta valsa é minha, que representa muito bem a primeira tomada de controle da escritora (e personagem) de sua própria vida e desejos.
Zelda escreveu esse livro por volta de 1930 e publicou-o em 1932. Scott não gostou de saber que sua esposa iria usar a vida dos dois para escrever um livro, sendo que ele também pensava em usar esse tema - mais uma tentativa de apagar dela uma fonte de expressão. Dois anos após a publicação, Scott escreveu Suave é a noite, sua própria versão inspirada no acontecimento da decadência da vida do casal. Penso que seria bom também ler esse livro para comparar com o de Zelda. 

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Filme: Drácula 3D (2012)

No final de semana passado, teve a tradicional Virada Cultural aqui em São Paulo. Fui ver a OSESP na Sala São Paulo, como faço todos os anos, e também aproveitei para ir ao CineSesc assistir a uma apresentação gratuita do filme Dracula 3D (2012) do diretor Dario Argento. Foi muito divertido participar desse evento, porque o cinema contratou vários atores vestidos de vampiros para assustar as pessoas na fila do cinema. 

O diretor é muito famoso, mas eu nunca tinha assistido a nenhum filme dele porque ele é conhecido por seus filmes de terror e eu confesso que sou muito medrosa. Todavia,  Drácula é um clássico de Bram Stoker, o filme de 1992 é incrível e, por causa disso, eu me esforcei para assistir. Poxa, eu nem precisava ter me esforçado tanto, porque o filme não é assustador como o livro (e os outros filmes do Drácula). 

Drácula 3D (2012) é um filme muito diferente, porque ele surpreende qualquer espectador que esteja esperando por um filme tradicional de terror. Ainda que ele contenha muito sangue, cenas terríveis e figuras assustadoras, ele não gera muito medo porque é exagerado e produz estranhamento... ou melhor, humor. A atmosfera misteriosa e de suspense que está presente em todas as versões de Drácula não existe nesse filme. 

Confesso que fiquei muito impaciente quando o filme começou, por achar o filme muito ruim. Só que ele é de um tipo ruim que chama a atenção em todos os aspectos. Os diálogos são muito artificiais e parecem mal-feitos, o sangue é produzido no computador  e as cenas mais violentas são exageradas e digitalizadas. O som é alto e um cliché de filmes de terror (ou aliens?) antigo, e os efeitos em 3D também são exarcebados. As imagens se destacam mais da tela do que os filmes tradicionais, com elementos - como as moscas - saltando em direção ao espectador.  

Com o passar do tempo, resolvi dar uma chance ao filme e comecei a perceber que o exagero era proposital. Fiquei feliz por ter ficado, porque o enredo ficou cada vez mais irreal e Drácula se transformava em moscas e - no ápice - em um grande gafanhoto verde digital! Com isso, comecei a encarar o filme com humor e passei a me divertir muito mais. 

Esses elementos do filme começam a fazer mais sentido quando conseguimos perceber as ligações com os filmes Lado B de terror. A música é o que primeiro chama a atenção: aqueles sons que parecem marcar uma invasão alienígena, muito comum nos filmes do Ed Wood. A má-atuação e o descompromisso com a adaptação também são característicos do gênero. Os efeitos especiais são o que mais chamam a atenção, por parecerem ser muito pouco verossímeis. 

Mesmo com todas essas referências de cinema, eu não consegui gostar desse filme. A principal característica do cinema lado B é a falta de recursos devido ao baixo orçamento. Esses defeitos, especialmente quanto aos efeitos especiais precários, causam muito humor e hoje são considerados clássicos por alguns cinéfilos. O filme Drácula 3D (2012) é engraçado e os efeitos especiais são exagerados, mas o orçamento do filme foi de 5,6 milhões de euros! Ou seja, esse efeito é proposital e não é causado pela falta de investimento, mas pelo excesso de efeitos. 

Ainda que eu goste do exagero estético e a plasticidade em cenas de violência, como nos filmes do Quentin Tarantino, nesse filme do Dario Argiento achei todas as cenas esteticamente muito ruins. Mesmo se considerarmos o filme como uma homenagem ao cinema lado B, que é a única maneira pela qual eu consigo encará-lo, achei-o um verdadeiro fracasso que não compensa o humor causado pelas cenas exageradas ou propositalmente mal-feitas. Sei que esse diretor produziu filmes muito bons e que comecei pelo pior deles, mas eu pretendo assistir a outros títulos para descobrir o que há de bom em Dario Argento. 

Trailer:


Assistam ao trailer (com gafanhoto incluso!), mas só mesmo vendo o filme inteiro é possível perceber o que falei.

terça-feira, 6 de maio de 2014

6 on 6 de maio







1. Editora Intrínseca: só para avisar que mais nova parceria do blog é com a Intrínseca e estou muito ansiosa para poder escolher livros do catálogo deles para ler e analisar aqui. Se vocês tiverem sugestões de algum livro deles que gostariam que eu lesse, por favor, escrevam nos comentários! O livro e a ecobag da foto foram presentes da editora para os novos parceiros, e não o livro escolhido do mês.

2, 3 e 4. Casamatas: no feriado, eu fui conhecer as novas instalações da Pinacoteca de São Paulo. Gostei bastante dos jardins suspensos da exposição Casamata do artista Laerte Ramos.

5 e 6. Arte contemporânea: a fantástica exposição ZERO, que traz obras dessa vanguarda artística dos anos 60. Fiquei realmente impressionada com as chamadas esculturas cinéticas e a maioria das obras envolvia ilusões de ótica. Vocês podem saber mais sobre essa exposição aqui.

Confiram também o 6 on 6 da Alessandra, Jéssica,  MarcelaRaissa e Viviane.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Resenha: Em busca do tempo perdido, Marcel Proust


É difícil falar sobre aquilo que gostamos muito, porque somos inundados por todos aqueles sentimentos e memórias tidas enquanto estávamos envolvidos com isso. No meu caso, a dificuldade que se apresenta é  discorrer um pouco sobre aquele que se tornou o romance da minha vida.  Trata-se do longo Em busca do tempo perdido (À la recherche du temps perdu), de Marcel Proust.  Dividido em 7 livros, com os títulos:  No Caminho de Swann, À sombra das raparigas em flor,  O caminho de Guermantes, Sodoma e Gomorra, A prisioneira, A fugitiva e, por fim, O tempo redescoberto. No total, mais de 3000 páginas, publicadas entre 1913 e 1927.

O romance discorre sobre o tempo e conta a história do protagonista Marcel, cujo nome é mencionado apenas no 5º livro, e nos dá a impressão de ser uma autobiografia do próprio Marcel Proust. É um romance de formação, com 7 volumes que falam sobre sobre o amadurecimento do herói. O primeiro livro No caminho de Swann mostra a mais tenra infância do narrador, que é acometido por frequentes crises de asma e é dependente do amor e carinho da mãe e da avó. Também conhecemos o drama de Swann, seu vizinho em Combray, judeu e extremamente culto, sendo uma grande referência artística nos salões de Paris. Entretanto, Swann se apaixona por Odette, uma coquete francesa que está apenas interessada em seu dinheiro e prestígio social. É com ela que ele se casa e arrisca todo o seu reconhecimento artístico, pois passa a ser dominado por ela. Esse personagem é uma referência e uma aspiração para o menino frágil que adora ler. O livro tem um começo incrível e suas 100 primeiras páginas nos narram aquela sensação curiosa que temos ao acordar e não sabermos em que quarto nós estamos. 

Os demais livros nos mostram a adolescência de Marcel, acompanhada de sua sensibilidade artística, o seu primeiro contato com a aristocracia francesa e a entrada nos famosos salões de Paris. Ele se apaixona por Albertine e a encarcera por ter muitos ciúmes dela. E sua vida torna-se uma grande frustração, pois tenta se tornar um escritor, mas passa todo o tempo entre festas, viagens à beira-mar e ocupado com seu obsessivo relacionamento. Ele sente-se muito frustrado por perder seu tempo e seu talento criativo com efemeridades. 


Contudo, o ponto forte do livro não são as indas e vindas dos aristocratas nos salões franceses, mas as muitas páginas dedicadas à discussões verdadeiramente filosóficas sobre música, literatura e artes que permeiam o romance. Os momentos de introspecção do narrador, com grande influência simbolista, são as melhores partes e esse tipo de narrativa é propiciada pelo fato do narrador estar em 1ª pessoa, permitindo a subjetividade do relato. O livro possui duas vozes narrativas: Marcel, o protagonista que vive a história de sua vida de forma progressiva; e o narrador, seu eu-futuro, que é quem recapitula a história de sua própria vida e faz intromissões que adiantam ao leitor os fatos que ainda não aconteceram.  

Em Em busca do tempo perdido, Marcel Proust escreve de forma a fazer com que o passado invada o eu-presente em forma de memórias. Assim, o narrador é acometido frequentemente por reminiscências da infância, como é o caso da mais famosa cena do romance, em que uma madeleine (o bolinho francês) molhada no chá traz do passado uma memória involuntária que invoca felicidade. 

Desde o título, vemos que o tempo é a principal discussão do livro, porque o tempo do relógio não é igual ao tempo psicológico, ou seja, aquele que sentimos passar ao viver. O protagonista frequentemente não se dá conta do seu envelhecer e, por isso, sente como se tivesse perdido muito tempo de sua juventude. 

Durante a obra toda, o narrador procura escrever e colocar em prática seu talento literário, mas é impedido por suas atividades na sociedade. Porém, é apenas em O tempo redescoberto que Marcel, já maduro, consegue chegar a uma conclusão a respeito do que realmente significa a arte e o tempo e começa a escrever. Por isso, a obra é cíclica e o narrador conta a sua história para reencontrar o tempo de sua vida. Assim, quando terminamos de ler a obra, temos a vontade de começar novamente do primeiro volume. Portanto, o que é muito interessante nos volumes de Em busca do tempo perdido é que, no fundo, o livro trata do próprio fazer literário. É um romance que elogia a própria literatura, porque o narrador encontra o tempo perdido através da escrita, ou seja, retomando através de palavras todo o seu passado, que ele sentia já ter perdido. 

O livro foi tão especial para mim por causa dos aspectos subjetivos, das discussões sobre a arte e - principalmente -porque eu também me aflijo muito com o passar do tempo. Eu me identifiquei com o protagonista como criança e jovem e vi muito dos meus dilemas presentes nele. Além disso, é um livro de sensações e memórias e, enquanto não tenho uma madeleine que me traga lembranças, também vivo com sensações do passado. 

Meus livros favoritos de Em busca do tempo perdido foram No caminho de Swann, primeiro livro, e O tempo redescoberto, último livro. Curiosamente, descobri depois que eles foram os dois primeiros livros a serem escritos por Proust, que só depois escreveu o meio da história. Gostei muito do fato do livro começar onde termina e eu fiquei com vontade de reler todo o romance novamente. Lerei ainda muitas vezes. 

Achei interessante também que pensei ser algum tipo de autobiografia do autor, mas até nisso Proust subverteu e, lendo um pouco da história dele, descobri que ele inverteu vários aspectos da história. Por exemplo, ao contrário do protagonista, Proust era judeu. Assim, ele faz seu personagem enxergar o mundo por um ponto de vista diferente do seu. 

Eu recomendo esse livro para leitores sensíveis e para aqueles que se importam mais com impressões e filosofias do que para um enredo cheio de aventura. É claro que o romance possui uma história, como contei acima, mas o mais importante nele é a maneira (moderna, reflexiva, sensível) com a qual essa história foi contada. 

Resenha por Renata Rede.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Resenha: As Sombras de Longbourn, de Jo Baker


Para o mês de abril, escolhi ler e escrever sobre o romance As Sombras de Longbourn, de Jo Baker, que foi lançado agora pela Companhia das Letras. Escolhi este porque sei que a maioria de vocês já leu e adora os romances de Jane Austen. As Sombras de Longbourn é a história de Orgulho e Preconceito contada pela perspectiva dos criados da casa dos Bennet. Achei muito interessante essa mudança de ponto de vista, porque, quando lemos os livros de Jane Austen, sabemos como são a vida dos ricos, que precisam fazer bons casamentos, ou viver de rendas. O trabalho era mal visto e esses personagens mal são retratados em seus romances.

Jo Baker resolveu dar vida e histórias próprias para esses personagens sem nome, que mantinham a casa, lavavam as anáguas das cinco moças, e esperavam durante a noite as moças voltarem dos bailes. A história dos criados segue, paralelamente, a mesma história retratada em Orgulho e Preconceito, apenas com uma prolongação de tempo no final. Então, enquanto as moças vão para Netherfield, os criados passam as semanas arrumando os vestidos para a ocasião, preparam a carruagem e o cocheiro espera as moças retornarem. Sempre que um jantar é mencionado no livro de Austen, aparece a cena dos criados preparando o jantar no livro de Jo Baker. Nesse sentido, o livro é bem articulado. A propósito, vale lembrar que Longbourn era o nome da propriedade dos Bennet e "sombras" não está no título original do livro em inglês, mas achei uma adaptação interessante para incluir nele o fato de serem histórias dos criados, que eram como sombras no livro de Austen.



Mais do que uma cópia do romance de Jane Austen, no livro As Sombras de Longbourn, os personagens possuem histórias próprias que não se baseiam apenas na vida de seus patrões. O livro conta a história da criada Sarah, que é a arrumadeira e lavadeira da casa dos Bennet. Ela é uma órfã que foi recolhida pela Sra. Hills, a governanta, e é bem tratada na casa, mas tem que trabalhar desde o despertar e possui as mãos cheias de ferida. Além da governanta Sra. Hills, conhecemos o velho mordomo Sr. Hills, e Polly, uma adolescente que também foi recolhida do orfanato e agora ajuda nos trabalhos domésticos; na realidade, seu nome era Mary, mas como uma das filhas da família, Mary Bennet, já tinha esse nome, ela passou a ser chamada de Polly. A família contrata um novo empregado, James Smith, que é misterioso e ninguém sabe onde trabalhou antes, causando a desconfiança de Sarah.

A empregada Sarah sente algum tipo de atração por James, mas age com ele de uma forma desconfiada e preconceituosa. Senti que, a principio, a autora resolveu fazer um paralelo da relação dos dois da mesma forma com que Austen fez com Elizabeth e Darcy. É uma brincadeira com os fãs do livro e achei inteligente porque ela não prosseguiu com isso e fez com que os personagens deste livro tivessem histórias originais. Além disso, não só os empregados, mas os famosos personagens de Orgulho e Preconceito também fazem parte do romance de Jo Baker. Vemos uma outra perspectiva do Sr. Bennet, que é tão duro com a esposa, e as razões pelas quais a Sra. Bennet é tão carente. Também vemos o vilão Wickham se intrometendo na cozinha e assediando uma das criadas, assim como era de costume na sociedade da época.

O ponto forte do livro de Jo Baker é a pesquisa histórica do período de regência britânica, época a qual o livro se refere. Lendo os livros de Jane Austen, somos englobados -sempre- por aquela vida interiorana de preocupações com casamentos e heranças, mas nas histórias sempre jazem um fundo histórico de guerra, milícias e instabilidade econômica. Jo Baker resolveu pesquisar esse background histórico a fundo e fez seus personagens serviçais sentirem na pele e sofrerem com o comércio de escravos e escravidão, com a longa guerra entre a Inglaterra e a França e com a pobreza causada por isso. Ou seja, aquilo que pouco transparece no livro de Jane Austen passa a ser a história principal do romance em As Sombras de Longbourn.

Nitidamente, As Sombras de Longbourn é um livro para quem gosta de Jane Austen e quer sentir uma outra perspectiva de seu amado romance Orgulho e Preconceito. Sei que existem muitos livros do tipo e que tentam retomar esse clássico, mas acho que este vale a pena ser lido porque é muito bem escrito, montado e possui uma excelente pesquisa histórica para facilitar nossa compreensão desse período do começo do século XIX na Inglaterra.

Resenha por Renata Rede.

Livro cortesia da editora Companhia das Letras:
BAKER, Jo. As Sombras de Longbourn. Trad.: Donaldson M. Garschagen. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. 453p.


segunda-feira, 14 de abril de 2014

Conto: Ar(v)idez



Ele estava chamando-a de novo. Ou melhor, era como se ele a chamasse e ela ouvisse sua voz enquanto deitava em sua cama. Seus pensamentos sempre pairavam nele, mas havia momentos em que a falta era quase insuportável. Poderíamos chamar isso de saudade, mas era algo quase biológico. Seus lábios estavam secos, rachados e pálidos; sua boca áspera e árida. A secura se confundia com avidez. 

Inquietadoramente, debatia-se na cama e seu alívio era segurar a lembrança que havia ganhado da última vez que se encontraram. Ela apertava o pequeno objeto côncavo em sua mão esquerda com tanta força, que imprimia toda a sua forma na palma da mão. Enquanto isso, fechava firmemente os olhos e desejava estar lá. Fingia sonhar para poder sentir o vento e se lembrar de cada sensação. Fechou os olhos e também tentou chorar, mas seus olhos secos não se molhavam, pois as lágrimas salgadas não viriam acalentar seu coração nesses momentos de secura. 

Abria e fechava as mãos, esfregava-as uma nas outras e nos lençóis. Ao levantar sua mão contra a luz, sentiu que algo estava errado e fora de lugar: ela mesma. Sua mão não era mais a mesma pois parecia enrugada, seca e descamada. Sabia que não era só a mão, já que se sentia seca por dentro. Até mesmo seu coração sentia-se seco. 

Levantou bruscamente. Pensou que um banho poderia resolver, já que a água sempre ajuda a arrefecer seu corpo e acalmar seus desejos. Ligou o chuveiro e procurou não deixar a água muito quente, pois o frio refrescava e fazia-a pensar que estava com ele. A água da ducha batia em suas costas e escorria. Lembrava vagamente do seu toque. Apenas vagamente, porque a água era doce. Doce demais em comparação a ele, que era arredio e selvagem. Ao menos, essa água hidratava, ainda que momentaneamente. E fazia-a se lembrar mais nitidamente...

Era difícil precisar quando essa obsessão havia começado, mas havia alguns resquícios que remetiam à infância, que foi quando se conheceram. A proximidade surgiu mais tarde, nos anos da adolescência. A princípio, era por beleza e diversão. Fotografias guardadas. Ela passou a se vestir para ele. Usava sua cor favorita. Tecidos fluidos, como sua pele. Os ornamentos passaram a ser todos presentes dele. Cada detalhe pensado em sua homenagem, mesmo quando longe.

Havia algo nela que ouvia seu chamado e o compreendia. Entendia que seus mistérios deveriam ser preservados. Respeitava seus limites. Era para ela muito mais que um amor, mas um pai, uma mãe... sua origem primeira. Ele era tão velho quanto o tempo, quanto o mundo. 

A verdade é que ela desejava ser sua filha, mas isso não era possível. Ele a renegara desde que nascera. A culpa não pertencia a nenhum dos dois, mas era impossível ser o que não fora feita para ser. Eles pertenciam a mundos diferentes. Ela não tinha maneiras de sobreviver na sua imensidão. Tinha pulmões que como esponjas se encharcariam de água. Sereias não existiam e, por isso, ela não se tornaria uma. Qualquer tentativa de fuga acabaria com sua morte. E a morte era a única solução para se unirem. 

Desligou o chuveiro e já se sentia um pouco melhor. Pensou que, quando chegasse a hora, deveriam jogar seu corpo no mar. 

Escrito por Renata Rede.

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