segunda-feira, 1 de junho de 2015

Filme: Vidas ao Vento (Kaze tachinu, 2013) de Hayao Miyazaki

"Le vent se lève, il faut tenter de vivre.
 Paul Valéry 

Acabo de assistir Vidas ao Vento (風立ちぬ, 2013) e resolvi dividir com vocês um pouco daquilo que pensei. Ele é o último filme de Hayao Miyazaki, diretor de diversos filmes que gosto muito, como a Viagem de Chihiro e A Princesa Mononoke, e também foi produzido pelo Studio Ghibli.

 Ao contrário dos demais, Vidas ao Vento é um filme com bem menos presença do fantástico, já que é - em parte - uma biografia. A animação conta a história de Jiro Horikoshi, um jovem apaixonado pela aviação que se torna um engenheiro de aviões e projeta, inclusive, o caça M6A Zero, avião usado na Segunda Guerra Mundial que ficou famoso pelo kamikaze.

 Jiro Horikoshi é homenageado com esse belo filme de Hayao Miyazaki através do amor pela aviação e pela criação e inteligência usada de forma errônea. Nascido em 1903, Jiro é um jovem japonês apaixonado por aviões e decide aprender a projetar aviões porque enxerga mal e não pode se tornar um piloto. Ele segue seu sonho de infância e se torna engenheiro aeronáutico em época de guerra e é convocado pelas empresas a criar aviões de combate - ainda que seu maior sonho fosse criar aviões de passageiro. Os japoneses se aliam à Alemanha na guerra e Jiro busca compreender o conhecimento aeronáutico dos alemães para criar aviões japoneses. Devo lembrar que o Japão ainda não era uma potência de tecnologia...


Caso fosse simplesmente uma biografia o filme seria mediano, mas o grande diretor transformou o filme em uma obra-prima porque se desviou do gênero biográfico. Ele mistura a "história real" com uma história inventada para tornar o filme ainda mais profundo e interessante. Jiro se apaixona, quando jovem, por uma moça chamada Naoko Satomi. Infelizmente, ela está com tuberculose e vai se tratar em um sanatório no meio das montanhas. Essa segunda parte é baseada no livro da década de 30 de Tatsuo Hori sobre uma moça com tuberculose. 

A influência germânica no Japão durante a Segunda Guerra somada à doença de Naoko faz com que o filme faça referência direta a Thomas Mann - escritor alemão - e ao seu grande romance, A Montanha Mágica, que se passa em um sanatório para tuberculosos. Um personagem alemão cita o autor algumas vezes ao longo do filme para antecipar a tragédia. Algumas cenas me fizeram lembrar bastante do livro, como esta:

Cena comum nos sanatórios, mas consagrada em A Montanha Mágica

A referência não é gratuita. Enquanto Vidas ao Vento conta uma história que culmina na Segunda Guerra Mundial, o livro de Thomas Mann, A Montanha Mágica, culmina na destruição pela Primeira Guerra Mundial.

A interferência de Hayao Miyazaki na biografia de Jiro Horikoshi não é um empecilho e não torna a história menos real. Pelo contrário, a invenção da história de Naoko aumenta as possibilidades de interpretação do filme. Vidas ao Vento é, na minha opinião, o filme mais adulto de Hayao Miyazaki. Não apenas pelo tema de guerra, mas pelas referências que o espectador precisa invocar para compreender as partes do filme.

 Por fim, o último filme de Hayao Miyazaki invoca a vida e a morte, como na frase de Paul Valery "O vento se levanta, é preciso tentar viver", ainda que os sonhos se transformem em guerra e em morte. Vidas ao Vento é um filme bem significativo como sendo o último na carreira deste grande diretor. 

Trailer:

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Reflexões sobre Alice no País das Maravilhas (e Através do Espelho)


Ando um pouco obcecada por Alice no País das Maravilhas (Alice's Adventures in Wonderland, 1865). Eu havia lido os livros do Lewis Carroll diversas vezes, mas esse ano eu resolvi escolher esse livro como leitura para meus alunos na escola em que trabalho. Isso fez com que eu só pensasse em Alice, relesse meu livro, esmiuçasse, elaborasse provas e, por enquanto... é tudo Alice para mim. Coincidentemente, descobri há pouco tempo que Alice no País das Maravilhas completa 150 anos em 2015.  

O famoso livro de Alice no País das Maravilhas foi escrito por Lewis Carroll, pseudônimo de Charles Lutwidge Dogson, em 1865 em homenagem à pequena garota de 7 anos de idade chamada Alice Liddell. Sua relação com a menina não era clara e a família chegou a se afastar dele, mas era nítido que ele gostava apenas da companhia de crianças.

O livro escrito para Alice conta a famosa história da menina entediada que encontra um coelho, acaba entrando em sua toca e caindo em um um longo túnel que é a passagem para o País das Maravilhas. Nesse lugar fantástico, os animais e as flores podem falar, as cartas de baralho ganham vida, ela pode mudar de tamanho diversas vezes e as conversas são absurdas. Em Alice Através do Espelho (Through the looking glass and what Alice found there, 1971) ela atravessa um espelho e passa a fazer parte de um jogo de xadrez. 

Essas conversas e situações estranhas descritas no livro podem passar apenas por nonsense, mas a releitura do livro me fez observar tantos detalhes com uma outra perspectiva que o livro ganhou diversas significações. Primeiro, a linguagem é um desafio - especialmente se tratando em traduções - pois o autor brincava muito com a língua inglesa e com suas expressões idiomáticas, como o exemplo  da hipérbole de "cry me a river" que se transformou em um rio de lágrimas.  Além disso, o livro possui diversas charadas e detalhes que fazia parte e sentido apenas para a sociedade da época em que o livro foi escrito. 

O absurdo e o nonsense nos livros de Alice é muito diferente de outros livros famosos, como, por exemplo, em Kafka. O absurdo de Alice é menos uma leitura social em comparação a Kafka, mas também não é apenas para a diversão. Um dos meus episódios favoritos de Alice no País das Maravilhas é o encontro com a lagarta, que provoca um questionamento de quem, afinal, seria Alice... pois essa menina cresceu e diminuiu tantas vezes que já nem sabe quem é. Trata-se de um questionamento bastante sensível sobre o crescimento e adolescência e a insegurança que a mudança de tamanho traz às meninas, especialmente

"Quem é você?"
"Eu... mal sei, Sir, nesse exato momento... pelo menos, sei quem eu era quando me levantei de manhã, mas acho que já passei por várias mudanças desde então." p.38

Outro episódio favorito está em Alice Através do Espelho, com o aparecimento de Humpty-Dumpty, personagem que mostra pensamentos sobre a língua e seu significado, como no caso em que parece discutir a respeito da arbitrariedade dos signos linguísticos

"Quando eu uso uma palavra, ela significa exatamente o que eu quero que signifique: nem mais nem menos. (...) A questão - disse Humpty Dumpty - é saber quem vai mandar, só isso."p.177

Em Alice no País das Maravilhas, o maravilhoso não é gratuito e pode provocar diversas reflexões interessantes, pois serve como uma alegoria para o desenvolvimento de Alice. Nestes livros, o absurdo serve mais como um maravilhamento dessa menina frente ao crescimento pessoal e Carroll faz o contraponto de Alice com sua irmã adulta, que lê livros sem figuras, mas consegue sonhar com o país das maravilhas, "embora soubesse que bastaria abrir os olhos e tudo se transformaria em insípida realidade..." (p.102).


Carroll, Lewis. Alice: edição comentada e ilustrada (Trad: Maria Luiza X. Borges) 2a. ed. Rio de Janeiro: 2013. 

domingo, 19 de abril de 2015

5 melhores peças para violino - Parte 3


Há algum tempo fiz algumas postagens no blog (link no final do post) sobre as minhas peças para violino favoritas. Nessas listas não incluí só concertos, mas vários tipos de peças compostas para o instrumento.  O primeiro, Concerto para violino de Sibelius, e o segundo, Introdução e Rondó Caprichoso concorrem ambos como meus favoritos e tenho-os ouvido há muito tempo. Espero que gostem!



1. Concerto para violino em Ré Menor, op. 47, de Jean Sibelius. 

Emocionante e expressivo, o concerto para violino de Jean Sibelius (1865-1957) é o concerto composto no século XX mais tocado. Exige uma grande técnica do violinista, porque foi feito para ser tocado por um virtuoso. O violino domina todo o concerto. 

2. Introdução e Rondó Caprichoso, de Camille Saint-Saëns.

Introdução e Rondó Caprichoso, opus 28, foi composto em 1863 e foi dedicado ao violinista e compositor Pablo de Sarasate, de quem falaremos mais abaixo. O rondó apresenta duas partes: primeiro é uma ária delicada que é seguida de um tema vivo e caprichoso.

3. Meditação de Thaïs, de Jules Massenet.

Jules Massenet (1842-1912) foi um compositor francês que compôs a ópera Thaïs, baseada no livro de Anatole France, que conta a história de um monge que se apaixona por uma cortesã.  A peça "Meditação" é o intertúdio dessa ópera e o lirismo da música acompanha a meditação da personagem a respeito da sua vida. Além de fazer parte dessa ópera, essa famosa peça é tocada individualmente como peça solo para violino.

4. Árias Ciganas, de Pablo de Sarasate.

As Árias Ciganas (1878) são aquele tipo de música que nos rouba desde as primeiras notas e mostra a excelência do violino, como instrumento, e do violinista. Composta por Pablo de Sarasate, um grande compositor e violinista do século XIX, romantismo. 

5. Concerto para dois violinos em Ré menor, de J. S. Bach.

Nesse concerto de Johann Sebastian Bach (1685-1750), os dois violinos dialogam e dividem a melodia com igualdade. O primeiro e terceiro movimento são fortes e o papel da orquestra é grande, mas o segundo movimento é o que mais destaca os violinos. 



Leia também:
5 Melhores peças para violino - Parte 1
5 Melhores peças para violino - Parte 2

domingo, 12 de abril de 2015

Filme: Um Jovem Poeta ( Un jeune poète, 2014)

Assisti a Um Jovem Poeta (Un jeune poète, 2014) recentemente e, por ser um filme cujo tema é poesia, achei-o interessante e resolvi escrever um pouco sobre ele. Dirigido por Damien Manivel, o filme francês, Um jovem poeta, retrata um assunto com o qual me identifiquei bastante: um jovem saído da adolescência que quer se tornar um poeta.

Rémi (Rémi Taffanel) é um jovem que decide ser um poeta e para isso viaja para a cidade litorânea de Sète em busca de inspiração para o seus poemas. Munido de seu caderninho e uma caneta, ele quer encontrar o lugar ideal para escrever. Ele acaba procurando pelos lugares mais clichés do mundo literário, e acaba sentando em frente a um túmulo, no cemitério da cidade. Interessante descobrir que aquele túmulo em frente ao qual ele se senta pertence ao famoso poeta francês que nasceu em Sète, Paul Valéry. 


A inspiração não vem, e ele continua a procurá-la pela cidade. Ele busca a inspiração das formas mais sonhadoras e engraçadas, porque ele tem em mente que todos os poetas são como aqueles famosos do século XIX. Além do cemitério, ele busca o contato com a natureza, com o mar, com os trabalhadores simples, num bar com mulheres mais velhas e na bebida. Suas musas são duvidosas. A inspiração ainda não vem para Rémi. Ele, então, busca por palavras raras no dicionário para usar em seus poemas, na biblioteca da cidade. Por fim, ele busca inspiração no amor ao se apaixonar por Léonore (Léonore Fernandes), uma garota que está passando as férias na cidade e gosta de fotografar. Porém, ela se assusta com o comportamento estranho de Rémi. 


No fundo Rémi representa o sonhador que ainda pensa que é capaz de viver como no passado e deixar seu nome na história. Ele é o estranho no lugar: branco demais para a cidade ensolarada, deslocado quanto aos demais jovens e sem encontrar seu lugar na poesia. Ele vislumbra os poetas do passado e constrói poucos versos ruins e imitativos, sempre se frustrando com a realidade. 

Além de ser um filme engraçado para quem gosta de literatura e compreende as referências de poesia, senti que esse filme questiona o lugar da poesia contemporânea, que já não pode mais ser como a do passado.Além disso, como se dá o surgimento de poeta nesse lugar tão impróprio para a poesia tradicional. Quem pode dizer que nunca se sentiu como Rémi?


Trailer legendado:

domingo, 29 de março de 2015

Resenha: A Hora dos Ruminantes, de José J. Veiga




Nesse ano de 2015, o escritor brasileiro José J. Veiga (1915-1989) completaria 100 anos; por esse motivo, a Companhia das Letras resolveu republicar a sua obra em uma bela edição comemorativa. O que me fez ter vontade de ler José J. Veiga é porque eu gosto muito de realismo fantástico/maravilhoso e esse escritor é o grande representante desse tipo de literatura no Brasil. 

A Hora dos Ruminantes foi o livro que escolhi para conhecer esse autor. Escrito em 1964, logo no início da ditadura militar, o romance do autor goiano conta a história da pacata cidade interiorana de "Manarairema".  Apesar de ser uma cidade fictícia, ela é o estereótipo das cidadezinhas do interior, que ficam fechadas em si mesmas e veem o desconhecido com desconfiança. 

O romance se inicia quando os moradores avistam no horizonte alguns cargueiros chegando, "quase casados com o azul geral". A chegada de forasteiros movimenta a cidade e faz com que todos os moradores se tornem curiosos a respeito dos novos moradores. A curiosidade só aumenta porque os "homens da tapera" armam o acampamento, mas não se aproximam da cidade e nem se apresentam aos moradores, tornando sua presença um grande mistério.


A princípio, os moradores de Manarairema são curiosos, mas não receptivos à chegada dos forasteiros, olhando-os com desconfiança. O primeiro contato se dá com Geminiano, que é requisitado pelos homens para fazer alguns serviços de carga com sua carroça. Em seguida, Amâncio é o próximo a estabelecer contato e se torna um confidente dos forasteiros. Apesar disso, o mistério continua, porque ninguém revela o motivo da vinda desses homens e o que eles estão fazendo acampados. Tudo que se sabe é que eles devem trazer algum tipo de progresso. 

Os moradores de Manarairema começam a se fechar de medo e a se sentirem ameaçados pelo acampamento vizinho. O acampamento misterioso se torna opressor e os moradores acabam tendo se servir, sem poder recusar, os forasteiros. Nenhuma violência é explícita, mas a opressão acontece porque o fato de estarem lá misteriosamente intimida os moradores interioranos. 

A presença desses homens e o efeito que têm sobre os moradores de Manarairema são misteriosos, mas o fantástico aparece na chegada dos animais. A cidade é invadida, primeiro, por cachorros, no episódio de "O dia dos cachorros". Muitos cães invadem a cidade e os moradores acreditam que isso se dá por causa dos forasteiros. A princípio, os moradores sentem medo, mas acabam se acostumando e fazendo amizade com os animais, até que um dia, sem razão nenhuma, os cachorros vão embora.

Logo depois, acontece o episódio de  "O dia dos bois". Aos poucos, bois e mais bois aparecem na cidade até que não sobre espaço nenhum nas ruas. Os animais colocam as cabeças dentro das janelas dos moradores e passam a ser espiados e não podem mais sair de casa. A aparição fantástica desses animais funciona como uma metáfora da opressão do desconhecido. Dias depois, sem nenhuma razão, os animais saem da cidade e só deixam a sujeira para os moradores, que já estavam se acostumando. 

O livro é uma espécie de fábula sobre a realidade da opressão e do medo. É um pouco kafkiano também, porque a pequena cidade de Manarairema vive em um absurdo: não sabem quem são os desconhecidos forasteiros e nem quais são suas intenções, ainda assim, precisam se subjugar com medo de uma violência desconhecida. Sofrem absurdas invasões de animais que servem para mostrar como o povo se acostuma com o terror do sufocamento e da repressão e aprendem a viver com isso. Com isso tudo, fica muito difícil ignorar o fato de que esse livro foi publicado no início da ditadura militar. 

VEIGA, José J. A hora dos ruminantes. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. pp.145.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Bibliofilia: presentes de aniversário


Resolvi criar uma nova seção no meu blog para mostrar a vocês os livros que tenho comprado e dividir minha paixão por edições especiais e bonitas, porque sei que a maioria das pessoas que leem meu blog se interessam por isso. 

Na quinta-feira, dia 19, foi meu aniversário e eu fui sortuda o bastante por ganhar presentes maravilhosos de alguns amigos meus. Inclusive, um foi surpresa! Dentre os presentes, eu ganhei alguns livros muito bonitos que gostaria de mostrar a vocês: 


Dos Estados Unidos, eu recebi da minha amiga Viviane (do blog Terrarium of Dreams) um livro maravilhoso, capa dura e ilustrado: Anne of Green Gables, da L. M. Montgomery. Eu tinha essa edição do The secret garden, e agora tenho mais um para formar uma linda coleção de clássicos infanto-juvenis. Ter recebido um pacotinho da Vivi melhorou toda a minha semana e me alegrou muito, por isso, só tenho a agradecer mais uma vez! Eu já comecei a ler esse livro e tem sido a leveza da minha semana. Estou gostando bastante!

Eu também ganhei Pride and Prejudice (Orgulho e Preconceito, em português), do meu namorado. Escrito por Jane Austen, esse romance tem me acompanhado desde quando iniciei a faculdade e estava cansada de ler livros pesados demais. Como quero reler a obra da autora, fiquei muito feliz por ganhar uma edição tão especial, Eu venho tentando colecionar esse tipo de edição e ainda mostrarei aqui os livros dessa coleção que já tenho. 



Ah! E, por último, o presente que me dei de aniversário! Há algum tempo eu estava buscando essa edição especial que a Cosac Naify lançou no ano passado. É uma edição de luxo com nova tradução em versos da Odisseia, de Homero.

Não costumo falar sobre isso aqui no blog, mas eu sou apaixonada por obras da antiguidade clássica e foi isso que me aproximou pela primeira vez do curso de Letras. Eu tenho uma coleção de livros e eu já possuo uma linda edição da Ilíada e uma edição mediana da Odisseia. Na verdade, a minha edição da Odisseia sempre me incomodou um pouco por causa da tradução do Carlos Alberto Nunes cujos versos eu não gostava muito e por isso também quis comprar essa nova edição. Eu ainda não sei se a tradução de Christian Werner é boa e precisaria de uma opinião mais precisa de algum helenista, mas eu compararei aqui a invocação das Musas das duas edições:

Edição Cosac Naify, Chistian Werner, Canto 1:
"Do varão me narra, Musa, dos muitas-vias, que muito
vagou após devastar a sacra cidade de Troia.
De muitos homens viu urbes e a mente conheceu,
e muitas aflições sofreu ele no mar, em seu ânimo,
tentando garantir sua vida e o retorno dos companheiros."


Edição Ediouro, Carlos Alberto Nunes, Canto 1:
"Musa, reconta-me os feitos de um herói astucioso que muito
peregrinou, dês que esfez as muralhas sagradas de Troia;
muitas cidades dos homens viajou, conheceu seus costumes,
como no mar padeceu sofrimentos inúmeros na alma,
para que a vida salvasse e de seus companheiros a volta."


Pensando no livro em si, a edição especial feita pela Cosac Naify é muito bonita. Ela possui páginas e letras acobreadas, capa dura com uma luva feita com dobraduras e diversas ilustrações que dividem cada um dos cantos da Odisseia. Essa edição já está esgotada no site da livraria, mas é possível ainda encontrá-la em outras lojas. 

Fiquei muito feliz com meus presentes e pretendo mostrar mais alguns outros livros que tenho para vocês daqui a algum tempo. Espero que tenham gostado! 

domingo, 8 de março de 2015

Resenha: A Imortalidade, de Milan Kundera


"O homem pode pôr fim à sua vida; 
mas não pode pôr fim à sua imortalidade"
(A Imortalidade - pp. 99)

Escolhi A Imortalidade, de Milan Kundera, pela Companhia das Letras para resenhar porque já conhecia outras obras do autor e já havia resenhado A festa da Insignificância. A cada vez que me deparo com um livro de Kundera, sinto uma certa barreira inicial ou uma dificuldade diferente. Porque propõe uma narrativa diferente, em que os personagens se misturam com o narrador, o ficcional se mistura com o "real". 

A imortalidade conta a história do escritor que, sentado em um clube, observa uma senhora de sessenta anos saindo da piscina e fazendo um gesto jovial. Essa cena faz surgir na cabeça do escritor o romance em torno da personagem, Agnés, que costumava fazer esse gesto quando jovem. Portanto, este romance percorrerá a história de Agnès que sente o luto pela morte do pai e tenta se refugiar na Suíça. Ela é casada com Paul e tem uma filha chamada Brigitte. Outra figura importante nessa história é Laura, sua irmã mais nova que sempre tenta imitá-la. 

É nessas duas personagens que está uma oposição do romance: a razão e a paixão. Agnès e Laura. O controle emocional e o drama são as oposições de duas irmãs. Laura usa óculos escuros para que pensem que ela tem chorado muito, enquanto Agnès se envergonha dos sentimentos: 

"Quando seu pai morreu, Agnès teve que organizar o enterro.(...) essa música era horrivelmente triste e Agnès temia não conseguir reter as lágrimas durante a cerimônia. Considerando inadmissível chorar em público,pôs no seu aparelho de som uma gravação do 'Adágio' e a escutou. (...) Mas, quando soou pela outava ou nona vez na sala, o poder da música enfraqueceu e na décima terceira audição Agnès ficou tão comovida como se tocassem diante dela o hino nacional da Paraguai.". pp.229

A "imortalidade" é discutida em forma de filosofia através de dois personagens ilustres, Goethe e Ernest Hemingway. Os dois famosos escritores surgem em alguns capítulos no meio do romance para conversar, ironicamente, depois de mortos, sobre a fama e a imortalidade que envaidece, mas incomoda. As questões de imortalidade se tornam ainda mais contrastantes quando se pensa em autores famosos em oposição à Agnès, que teve uma vida absolutamente convencional e anônima. Mas o conceito é pertinente, porque uma dicotomia de vida-morte surge no romance do começo ao fim. Alguns personagens morrem - e, às vezes, a morte é anunciada logo no início -  como no caso de Agnès, que morre em um acidente de carro quando tenta evitar um estranho suicídio.


Ainda mais interessante é que no livro, o autor se transforma em personagem e passa a interagir com algum deles em determinados momentos. Os personagens surgem na vida do narrador-escritor enquanto ele escreve o livro dentro do romance. Isso faz com que A imortalidade seja um romance dentro de um romance.

Assim como os outros romances de Milan Kudera, esse livro se dispõe a muita filosofia e desdobramentos do tema central, neste caso, a imortalidade frente a personagens com uma vida comum. Eu realmente gostei da escrita pouco convencional e elaborada de Kundera e, ainda que A Insustentável Leveza do Ser continue a ser o romance mais arrebatador, achei A Imortalidade bastante relevante dentre sua obra.

Eu já havia dito na outra resenha, adorei esse tipo de edição em capa dura e fico muito feliz por ter mais um livro do escritor com essa edição. Espero que a Companhia das Letras decida reeditar outras obras do Kundera, especialmente A Insustentável Leveza do Ser, para fazer parte dessa coleção. Preciso muito reler esse romance!

Livro enviado através da parceria com a Companhia das Letras.
KUNDERA, Milan. (1990). A Imortalidade. Trad. Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca e Anna Lucia Moojen de Andrada. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. 408 p.
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