domingo, 19 de abril de 2015

5 melhores peças para violino - Parte 3


Há algum tempo fiz algumas postagens no blog (link no final do post) sobre as minhas peças para violino favoritas. Nessas listas não incluí só concertos, mas vários tipos de peças compostas para o instrumento.  O primeiro, Concerto para violino de Sibelius, e o segundo, Introdução e Rondó Caprichoso concorrem ambos como meus favoritos e tenho-os ouvido há muito tempo. Espero que gostem!



1. Concerto para violino em Ré Menor, op. 47, de Jean Sibelius. 

Emocionante e expressivo, o concerto para violino de Jean Sibelius (1865-1957) é o concerto composto no século XX mais tocado. Exige uma grande técnica do violinista, porque foi feito para ser tocado por um virtuoso. O violino domina todo o concerto. 

2. Introdução e Rondó Caprichoso, de Camille Saint-Saëns.

Introdução e Rondó Caprichoso, opus 28, foi composto em 1863 e foi dedicado ao violinista e compositor Pablo de Sarasate, de quem falaremos mais abaixo. O rondó apresenta duas partes: primeiro é uma ária delicada que é seguida de um tema vivo e caprichoso.

3. Meditação de Thaïs, de Jules Massenet.

Jules Massenet (1842-1912) foi um compositor francês que compôs a ópera Thaïs, baseada no livro de Anatole France, que conta a história de um monge que se apaixona por uma cortesã.  A peça "Meditação" é o intertúdio dessa ópera e o lirismo da música acompanha a meditação da personagem a respeito da sua vida. Além de fazer parte dessa ópera, essa famosa peça é tocada individualmente como peça solo para violino.

4. Árias Ciganas, de Pablo de Sarasate.

As Árias Ciganas (1878) são aquele tipo de música que nos rouba desde as primeiras notas e mostra a excelência do violino, como instrumento, e do violinista. Composta por Pablo de Sarasate, um grande compositor e violinista do século XIX, romantismo. 

5. Concerto para dois violinos em Ré menor, de J. S. Bach.

Nesse concerto de Johann Sebastian Bach (1685-1750), os dois violinos dialogam e dividem a melodia com igualdade. O primeiro e terceiro movimento são fortes e o papel da orquestra é grande, mas o segundo movimento é o que mais destaca os violinos. 



Leia também:
5 Melhores peças para violino - Parte 1
5 Melhores peças para violino - Parte 2

domingo, 12 de abril de 2015

Filme: Um Jovem Poeta ( Un jeune poète, 2014)

Assisti a Um Jovem Poeta (Un jeune poète, 2014) recentemente e, por ser um filme cujo tema é poesia, achei-o interessante e resolvi escrever um pouco sobre ele. Dirigido por Damien Manivel, o filme francês, Um jovem poeta, retrata um assunto com o qual me identifiquei bastante: um jovem saído da adolescência que quer se tornar um poeta.

Rémi (Rémi Taffanel) é um jovem que decide ser um poeta e para isso viaja para a cidade litorânea de Sète em busca de inspiração para o seus poemas. Munido de seu caderninho e uma caneta, ele quer encontrar o lugar ideal para escrever. Ele acaba procurando pelos lugares mais clichés do mundo literário, e acaba sentando em frente a um túmulo, no cemitério da cidade. Interessante descobrir que aquele túmulo em frente ao qual ele se senta pertence ao famoso poeta francês que nasceu em Sète, Paul Valéry. 


A inspiração não vem, e ele continua a procurá-la pela cidade. Ele busca a inspiração das formas mais sonhadoras e engraçadas, porque ele tem em mente que todos os poetas são como aqueles famosos do século XIX. Além do cemitério, ele busca o contato com a natureza, com o mar, com os trabalhadores simples, num bar com mulheres mais velhas e na bebida. Suas musas são duvidosas. A inspiração ainda não vem para Rémi. Ele, então, busca por palavras raras no dicionário para usar em seus poemas, na biblioteca da cidade. Por fim, ele busca inspiração no amor ao se apaixonar por Léonore (Léonore Fernandes), uma garota que está passando as férias na cidade e gosta de fotografar. Porém, ela se assusta com o comportamento estranho de Rémi. 


No fundo Rémi representa o sonhador que ainda pensa que é capaz de viver como no passado e deixar seu nome na história. Ele é o estranho no lugar: branco demais para a cidade ensolarada, deslocado quanto aos demais jovens e sem encontrar seu lugar na poesia. Ele vislumbra os poetas do passado e constrói poucos versos ruins e imitativos, sempre se frustrando com a realidade. 

Além de ser um filme engraçado para quem gosta de literatura e compreende as referências de poesia, senti que esse filme questiona o lugar da poesia contemporânea, que já não pode mais ser como a do passado.Além disso, como se dá o surgimento de poeta nesse lugar tão impróprio para a poesia tradicional. Quem pode dizer que nunca se sentiu como Rémi?


Trailer legendado:

domingo, 29 de março de 2015

Resenha: A Hora dos Ruminantes, de José J. Veiga




Nesse ano de 2015, o escritor brasileiro José J. Veiga (1915-1989) completaria 100 anos; por esse motivo, a Companhia das Letras resolveu republicar a sua obra em uma bela edição comemorativa. O que me fez ter vontade de ler José J. Veiga é porque eu gosto muito de realismo fantástico/maravilhoso e esse escritor é o grande representante desse tipo de literatura no Brasil. 

A Hora dos Ruminantes foi o livro que escolhi para conhecer esse autor. Escrito em 1964, logo no início da ditadura militar, o romance do autor goiano conta a história da pacata cidade interiorana de "Manarairema".  Apesar de ser uma cidade fictícia, ela é o estereótipo das cidadezinhas do interior, que ficam fechadas em si mesmas e veem o desconhecido com desconfiança. 

O romance se inicia quando os moradores avistam no horizonte alguns cargueiros chegando, "quase casados com o azul geral". A chegada de forasteiros movimenta a cidade e faz com que todos os moradores se tornem curiosos a respeito dos novos moradores. A curiosidade só aumenta porque os "homens da tapera" armam o acampamento, mas não se aproximam da cidade e nem se apresentam aos moradores, tornando sua presença um grande mistério.


A princípio, os moradores de Manarairema são curiosos, mas não receptivos à chegada dos forasteiros, olhando-os com desconfiança. O primeiro contato se dá com Geminiano, que é requisitado pelos homens para fazer alguns serviços de carga com sua carroça. Em seguida, Amâncio é o próximo a estabelecer contato e se torna um confidente dos forasteiros. Apesar disso, o mistério continua, porque ninguém revela o motivo da vinda desses homens e o que eles estão fazendo acampados. Tudo que se sabe é que eles devem trazer algum tipo de progresso. 

Os moradores de Manarairema começam a se fechar de medo e a se sentirem ameaçados pelo acampamento vizinho. O acampamento misterioso se torna opressor e os moradores acabam tendo se servir, sem poder recusar, os forasteiros. Nenhuma violência é explícita, mas a opressão acontece porque o fato de estarem lá misteriosamente intimida os moradores interioranos. 

A presença desses homens e o efeito que têm sobre os moradores de Manarairema são misteriosos, mas o fantástico aparece na chegada dos animais. A cidade é invadida, primeiro, por cachorros, no episódio de "O dia dos cachorros". Muitos cães invadem a cidade e os moradores acreditam que isso se dá por causa dos forasteiros. A princípio, os moradores sentem medo, mas acabam se acostumando e fazendo amizade com os animais, até que um dia, sem razão nenhuma, os cachorros vão embora.

Logo depois, acontece o episódio de  "O dia dos bois". Aos poucos, bois e mais bois aparecem na cidade até que não sobre espaço nenhum nas ruas. Os animais colocam as cabeças dentro das janelas dos moradores e passam a ser espiados e não podem mais sair de casa. A aparição fantástica desses animais funciona como uma metáfora da opressão do desconhecido. Dias depois, sem nenhuma razão, os animais saem da cidade e só deixam a sujeira para os moradores, que já estavam se acostumando. 

O livro é uma espécie de fábula sobre a realidade da opressão e do medo. É um pouco kafkiano também, porque a pequena cidade de Manarairema vive em um absurdo: não sabem quem são os desconhecidos forasteiros e nem quais são suas intenções, ainda assim, precisam se subjugar com medo de uma violência desconhecida. Sofrem absurdas invasões de animais que servem para mostrar como o povo se acostuma com o terror do sufocamento e da repressão e aprendem a viver com isso. Com isso tudo, fica muito difícil ignorar o fato de que esse livro foi publicado no início da ditadura militar. 

VEIGA, José J. A hora dos ruminantes. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. pp.145.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Bibliofilia: presentes de aniversário


Resolvi criar uma nova seção no meu blog para mostrar a vocês os livros que tenho comprado e dividir minha paixão por edições especiais e bonitas, porque sei que a maioria das pessoas que leem meu blog se interessam por isso. 

Na quinta-feira, dia 19, foi meu aniversário e eu fui sortuda o bastante por ganhar presentes maravilhosos de alguns amigos meus. Inclusive, um foi surpresa! Dentre os presentes, eu ganhei alguns livros muito bonitos que gostaria de mostrar a vocês: 


Dos Estados Unidos, eu recebi da minha amiga Viviane (do blog Terrarium of Dreams) um livro maravilhoso, capa dura e ilustrado: Anne of Green Gables, da L. M. Montgomery. Eu tinha essa edição do The secret garden, e agora tenho mais um para formar uma linda coleção de clássicos infanto-juvenis. Ter recebido um pacotinho da Vivi melhorou toda a minha semana e me alegrou muito, por isso, só tenho a agradecer mais uma vez! Eu já comecei a ler esse livro e tem sido a leveza da minha semana. Estou gostando bastante!

Eu também ganhei Pride and Prejudice (Orgulho e Preconceito, em português), do meu namorado. Escrito por Jane Austen, esse romance tem me acompanhado desde quando iniciei a faculdade e estava cansada de ler livros pesados demais. Como quero reler a obra da autora, fiquei muito feliz por ganhar uma edição tão especial, Eu venho tentando colecionar esse tipo de edição e ainda mostrarei aqui os livros dessa coleção que já tenho. 



Ah! E, por último, o presente que me dei de aniversário! Há algum tempo eu estava buscando essa edição especial que a Cosac Naify lançou no ano passado. É uma edição de luxo com nova tradução em versos da Odisseia, de Homero.

Não costumo falar sobre isso aqui no blog, mas eu sou apaixonada por obras da antiguidade clássica e foi isso que me aproximou pela primeira vez do curso de Letras. Eu tenho uma coleção de livros e eu já possuo uma linda edição da Ilíada e uma edição mediana da Odisseia. Na verdade, a minha edição da Odisseia sempre me incomodou um pouco por causa da tradução do Carlos Alberto Nunes cujos versos eu não gostava muito e por isso também quis comprar essa nova edição. Eu ainda não sei se a tradução de Christian Werner é boa e precisaria de uma opinião mais precisa de algum helenista, mas eu compararei aqui a invocação das Musas das duas edições:

Edição Cosac Naify, Chistian Werner, Canto 1:
"Do varão me narra, Musa, dos muitas-vias, que muito
vagou após devastar a sacra cidade de Troia.
De muitos homens viu urbes e a mente conheceu,
e muitas aflições sofreu ele no mar, em seu ânimo,
tentando garantir sua vida e o retorno dos companheiros."


Edição Ediouro, Carlos Alberto Nunes, Canto 1:
"Musa, reconta-me os feitos de um herói astucioso que muito
peregrinou, dês que esfez as muralhas sagradas de Troia;
muitas cidades dos homens viajou, conheceu seus costumes,
como no mar padeceu sofrimentos inúmeros na alma,
para que a vida salvasse e de seus companheiros a volta."


Pensando no livro em si, a edição especial feita pela Cosac Naify é muito bonita. Ela possui páginas e letras acobreadas, capa dura com uma luva feita com dobraduras e diversas ilustrações que dividem cada um dos cantos da Odisseia. Essa edição já está esgotada no site da livraria, mas é possível ainda encontrá-la em outras lojas. 

Fiquei muito feliz com meus presentes e pretendo mostrar mais alguns outros livros que tenho para vocês daqui a algum tempo. Espero que tenham gostado! 

domingo, 8 de março de 2015

Resenha: A Imortalidade, de Milan Kundera


"O homem pode pôr fim à sua vida; 
mas não pode pôr fim à sua imortalidade"
(A Imortalidade - pp. 99)

Escolhi A Imortalidade, de Milan Kundera, pela Companhia das Letras para resenhar porque já conhecia outras obras do autor e já havia resenhado A festa da Insignificância. A cada vez que me deparo com um livro de Kundera, sinto uma certa barreira inicial ou uma dificuldade diferente. Porque propõe uma narrativa diferente, em que os personagens se misturam com o narrador, o ficcional se mistura com o "real". 

A imortalidade conta a história do escritor que, sentado em um clube, observa uma senhora de sessenta anos saindo da piscina e fazendo um gesto jovial. Essa cena faz surgir na cabeça do escritor o romance em torno da personagem, Agnés, que costumava fazer esse gesto quando jovem. Portanto, este romance percorrerá a história de Agnès que sente o luto pela morte do pai e tenta se refugiar na Suíça. Ela é casada com Paul e tem uma filha chamada Brigitte. Outra figura importante nessa história é Laura, sua irmã mais nova que sempre tenta imitá-la. 

É nessas duas personagens que está uma oposição do romance: a razão e a paixão. Agnès e Laura. O controle emocional e o drama são as oposições de duas irmãs. Laura usa óculos escuros para que pensem que ela tem chorado muito, enquanto Agnès se envergonha dos sentimentos: 

"Quando seu pai morreu, Agnès teve que organizar o enterro.(...) essa música era horrivelmente triste e Agnès temia não conseguir reter as lágrimas durante a cerimônia. Considerando inadmissível chorar em público,pôs no seu aparelho de som uma gravação do 'Adágio' e a escutou. (...) Mas, quando soou pela outava ou nona vez na sala, o poder da música enfraqueceu e na décima terceira audição Agnès ficou tão comovida como se tocassem diante dela o hino nacional da Paraguai.". pp.229

A "imortalidade" é discutida em forma de filosofia através de dois personagens ilustres, Goethe e Ernest Hemingway. Os dois famosos escritores surgem em alguns capítulos no meio do romance para conversar, ironicamente, depois de mortos, sobre a fama e a imortalidade que envaidece, mas incomoda. As questões de imortalidade se tornam ainda mais contrastantes quando se pensa em autores famosos em oposição à Agnès, que teve uma vida absolutamente convencional e anônima. Mas o conceito é pertinente, porque uma dicotomia de vida-morte surge no romance do começo ao fim. Alguns personagens morrem - e, às vezes, a morte é anunciada logo no início -  como no caso de Agnès, que morre em um acidente de carro quando tenta evitar um estranho suicídio.


Ainda mais interessante é que no livro, o autor se transforma em personagem e passa a interagir com algum deles em determinados momentos. Os personagens surgem na vida do narrador-escritor enquanto ele escreve o livro dentro do romance. Isso faz com que A imortalidade seja um romance dentro de um romance.

Assim como os outros romances de Milan Kudera, esse livro se dispõe a muita filosofia e desdobramentos do tema central, neste caso, a imortalidade frente a personagens com uma vida comum. Eu realmente gostei da escrita pouco convencional e elaborada de Kundera e, ainda que A Insustentável Leveza do Ser continue a ser o romance mais arrebatador, achei A Imortalidade bastante relevante dentre sua obra.

Eu já havia dito na outra resenha, adorei esse tipo de edição em capa dura e fico muito feliz por ter mais um livro do escritor com essa edição. Espero que a Companhia das Letras decida reeditar outras obras do Kundera, especialmente A Insustentável Leveza do Ser, para fazer parte dessa coleção. Preciso muito reler esse romance!

Livro enviado através da parceria com a Companhia das Letras.
KUNDERA, Milan. (1990). A Imortalidade. Trad. Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca e Anna Lucia Moojen de Andrada. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. 408 p.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Nodame Cantabile


Aproveitei as minhas férias para assistir a um anime que gostei muito, chamado Nodame Cantabile (のだめカンタービ). Resolvi falar um pouco dele aqui porque sei que algumas pessoas que leem meu blog gostam muito de música e acho que isso pode interessar. Ao contrário do que muitos imaginam, no Japão os desenhos possuem gêneros e são recomendados para diversas idades, não apenas para crianças. Nodame Cantabile se originou em um mangá de Tomoko Ninomiya voltado para o público adulto feminino (女性 "josei") e fala sobre a carreira profissional de diversos músicos; uma comédia musical.

Shinichi Chiaki é um estudante de piano da Universidade de Música Momogaoka, no Japão. Apesar de ser extremamente dedicado e talentoso, não pode sair do país para se aperfeiçoar. Seu sonho é se tornar um maestro de uma orquestra e prosseguir seus estudos com o famoso regente europeu Sebastiano Vieira, porém, toda a sua futura carreira é ameaçada por causa de seu temor de avião e navio, fazendo-o ficar estagnado no Japão. É assim que ele conhece Megumi Noda (Nodame), uma caloura de piano considerada uma aluna mediana e sem objetivos grandes em relação à música, pois deseja tornar-se professora do primário. Ele despreza o jeito displicente da moça tocar piano, fazendo recomposições e jamais se atendo à partitura, mas ele acaba se encantando pela sua musicalidade. Nodame se apaixona por Chiaki e ele acaba se encantando por sua personalidade desordenada, mas criativa. A relação dos dois faz com que um ajude o outro a alcançar objetivos maiores em relação à música e realizarem seus sonhos.


O anime se passa entre orquestras, competições e aulas de música. Chiaki conhece Stresemann, um famoso maestro alemão que é concorrente de Vieira, e acaba se tornando seu pupilo. Aos poucos, a carreira de Chiaki começa a se desenvolver e ele passa a não ser apenas um pianista (e violinista) talentoso, mas também um maestro em pequenas orquestras. 

Nodame Cantabile conta com mais duas temporadas em que as personagens vão a Paris estudar em um conservatório de música. Chamadas de Nodame Cantabile Paris-Hen e Nodame Cantabile Finale Além disso, a história de Nodame Cantabile virou um dorama, tipo de série de TV com atores. Ainda não terminei de assistir ao dorama, mas estou achando a sua comédia um pouco desmedida demais... 



Voltando ao anime, não preciso dizer que os principais atrativos dele são a trilha sonora e a história que envolve peças clássicas. A cada episódio, obras de compositores famosos são apresentadas e fazem parte do enredo, assim, sabemos de suas dificuldades, de sua história de composição e de diversas outras informações interessantes na perspectiva do estudante. Para os entusiastas de música, esse é o anime ideal para acompanhar suas obras favoritas. Fazem parte dela, Mozart, Bach, Rachmaninoff, Debussy, Ravel, Chopin... e tantos outros compositores famosos! 

Um dos aspectos que mais admirei em Nodame Cantabile é que as obras foram realmente pesquisadas e feitas para um público que conhece e gosta de música erudita. Um dos exemplos disso: os espectadores mais atentos devem ter percebido que a música de abertura de Nodame Cantabile Paris-Hen é baseada no tema do terceiro movimento "Allegro Scherzando" do Concerto nº2 para piano de Rachmaninoff:


É claro que se trata de uma homenagem, não de uma cópia, especialmente porque o Concerto nº2 para piano de Rachmaninoff aparece na primeira temporada como uma parte importante do enredo. Na abertura, disfarçadamente, deleita os fãs!

Caso estejam curiosos, é possível assistir ao anime online e com legendas em diversos sites na internet, basta procurarem pelo título. São quase cinquenta episódios, mas agora que acabou estou sentindo muita falta! 

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Resenha: O estrangeiro em quadrinhos


O estrangeiro em quadrinhos é uma adaptação da clássica e muito conhecida obra do autor argelino, Albert Camus. Adaptado pelo artista também argelino, Jacques Ferrandez. É uma graphic novel bastante fiel ao romance de Camus, belamente ilustrada em aquarela. Trata-se da conhecida história de Mersault, que logo depois de perder a mãe, envolve-se em uma briga com árabes e acaba sendo encarcerado por assassinar um deles na praia.

O romance abrange o tema do absurdo, e mostra a falta de sentido na vida. O protagonista Mersault é um homem desinteressado que perde a mãe e é culpado pela vizinhança por tê-la colocado em um asilo. Logo após o velório, reencontra Marie, sua namorada, e os dois vão à praia, ao cinema e ele mantém um comportamento que não condiz com alguém que acabou de perder a mãe, pois ele parece não entender o significado disso. Nesse sentido, Mersault é bem sincero e se recusa a mentir ou fazer parecer aos outros uma sensibilidade que não possui, simplesmente porque fica perplexo com o absurdo existencial. 

O grande momento do romance acontece na praia, sob o sol escaldante da Argélia. Mersault envolve-se em uma briga de seu vizinho Raymond com árabes. Ele não possuía absolutamente nada contra o bando, mas em um certo momento, o Sol da Argélia teve um papel decisivo sobre a mente dele e ele acabou baleando várias vezes um árabe que tentava atacá-lo. A cena em si é um absurdo, pois ele mata um homem em uma briga que não era sua e sem muita razão. O Sol, nesse momento, torna-se uma das personagens do romance, pois é ele que desencadeia toda a tragédia que acontece a partir desse momento. 


A partir de então, começam-se os absurdos institucionais. Mersault é condenado por assassinato a sangue frio de um árabe. Em seu julgamento, em vez de se discutir o crime, apenas os pormenores de sua vida pessoal são discutidos. Aquilo que comove a justiça e convence a população da atrocidade de seu crime não foi o tiro, mas o fato de ser insensível à morte da mãe, de ter ido à praia e namorado após sua morte e ter inescrupulosamente internado-a em um asilo. Além disso, o fato de não se inclinar a um deus, ou ao menos fingir acreditar. 

Para o leitor, a condenação de Mersault é revoltante, porque o autor faz com que ele tenha uma punição muito maior que deveria por motivos absurdos. O livro é uma denúncia à falsidade da sociedade e às regras morais que são esvaziadas de sentido. Todos aqueles que acompanham as notícias de crimes irão reconhecer os fatos do livro como espelho da realidade e da manipulação da justiça e da mídia. Como exemplo, eu posso apontar os assassinos que passam a ser considerados bonzinhos após começarem a pregar em alguma religião, ou então aquele réu que passa a ser metralhado pela mídia que o acusa de fatos que vão muito além do crime pelo qual está sendo julgado. 


Jacques Ferrandes, assim como Albert Camus, também nasceu na Argélia. Talvez seja por isso que ele conseguiu captar tão bem esse romance solar de Camus. Além das paisagens e do local parecerem bem verossímeis com os do livro, a cena em que o Sol aquece e perturba Mersault, o fazendo atirar várias vezes no árabe é muito realista e convincente.

A adaptação de livros para quadrinhos deve ser mais do que apenas um "facilitador" da leitura - geralmente, obrigatória - de um clássico, mas uma releitura e o novo olhar e um artista sobre uma obra literária. Nesse sentido, O estrangeiro desenhado por Jacques Ferrandez atende à minha expectativa e mostra uma visão que me fez ter um contato diferente com o clássico de língua francesa tão conhecido e relido, O estrangeiro de Camus.

Livro enviado pela Companhia das Letras:
FERRANDEZ, Jacques. O estrangeiro, baseado na obra de Albert Camus. Trad. Carol Bensimon. São Paulo: Quadrinhos na Cia., 2014. pp.144.
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