sexta-feira, 18 de abril de 2014

Resenha: As Sombras de Longbourn, de Jo Baker


Para o mês de abril, escolhi ler e escrever sobre o romance As Sombras de Longbourn, de Jo Baker, que foi lançado agora pela Companhia das Letras. Escolhi este porque sei que a maioria de vocês já leu e adora os romances de Jane Austen. As Sombras de Longbourn é a história de Orgulho e Preconceito contada pela perspectiva dos criados da casa dos Bennet. Achei muito interessante essa mudança de ponto de vista, porque, quando lemos os livros de Jane Austen, sabemos como são a vida dos ricos, que precisam fazer bons casamentos, ou viver de rendas. O trabalho era mal visto e esses personagens mal são retratados em seus romances.

Jo Baker resolveu dar vida e histórias próprias para esses personagens sem nome, que mantinham a casa, lavavam as anáguas das cinco moças, e esperavam durante a noite as moças voltarem dos bailes. A história dos criados segue, paralelamente, a mesma história retratada em Orgulho e Preconceito, apenas com uma prolongação de tempo no final. Então, enquanto as moças vão para Netherfield, os criados passam as semanas arrumando os vestidos para a ocasião, preparam a carruagem e o cocheiro espera as moças retornarem. Sempre que um jantar é mencionado no livro de Austen, aparece a cena dos criados preparando o jantar no livro de Jo Baker. Nesse sentido, o livro é bem articulado. A propósito, vale lembrar que Longbourn era o nome da propriedade dos Bennet e "sombras" não está no título original do livro em inglês, mas achei uma adaptação interessante para incluir nele o fato de serem histórias dos criados, que eram como sombras no livro de Austen.



Mais do que uma cópia do romance de Jane Austen, no livro As Sombras de Longbourn, os personagens possuem histórias próprias que não se baseiam apenas na vida de seus patrões. O livro conta a história da criada Sarah, que é a arrumadeira e lavadeira da casa dos Bennet. Ela é uma órfã que foi recolhida pela Sra. Hills, a governanta, e é bem tratada na casa, mas tem que trabalhar desde o despertar e possui as mãos cheias de ferida. Além da governanta Sra. Hills, conhecemos o velho mordomo Sr. Hills, e Polly, uma adolescente que também foi recolhida do orfanato e agora ajuda nos trabalhos domésticos; na realidade, seu nome era Mary, mas como uma das filhas da família, Mary Bennet, já tinha esse nome, ela passou a ser chamada de Polly. A família contrata um novo empregado, James Smith, que é misterioso e ninguém sabe onde trabalhou antes, causando a desconfiança de Sarah.

A empregada Sarah sente algum tipo de atração por James, mas age com ele de uma forma desconfiada e preconceituosa. Senti que, a principio, a autora resolveu fazer um paralelo da relação dos dois da mesma forma com que Austen fez com Elizabeth e Darcy. É uma brincadeira com os fãs do livro e achei inteligente porque ela não prosseguiu com isso e fez com que os personagens deste livro tivessem histórias originais. Além disso, não só os empregados, mas os famosos personagens de Orgulho e Preconceito também fazem do romance de Jo Baker. Vemos uma outra perspectiva do Sr. Bennet, que é tão duro com a esposa, e as razões pelas quais a Sra. Bennet é tão carente. Também vemos o vilão Wickham se intrometendo na cozinha e assediando uma das criadas, assim como era de costume na sociedade da época.

O ponto forte do livro de Jo Baker é a pesquisa histórica do período de regência britânica, época a qual o livro se refere. Lendo os livros de Jane Austen, somos englobados -sempre- por aquela vida interiorana de preocupações com casamentos e heranças, mas nas histórias sempre jazem um fundo histórico de guerra, milícias e instabilidade econômica. Jo Baker resolveu pesquisar esse background histórico a fundo e fez seus personagens serviçais sentirem na pele e sofrerem com o comércio de escravos e escravidão, com a longa guerra entre a Inglaterra e a França e com a pobreza causada por isso. Ou seja, aquilo que pouco transparece no livro de Jane Austen passa a ser a história principal do romance em As Sombras de Longbourn.

Nitidamente, As Sombras de Longbourn é um livro para quem gosta de Jane Austen e quer sentir uma outra perspectiva de seu amado romance Orgulho e Preconceito. Sei que existem muitos livros do tipo e que tentam retomar esse clássico, mas acho que este vale a pena ser lido porque é muito bem escrito, montado e possui uma excelente pesquisa histórica para facilitar nossa compreensão desse período do começo do século XIX na Inglaterra.

Resenha por Renata Rede.

Livro cortesia da editora Companhia das Letras:
BAKER, Jo. As Sombras de Longbourn. Trad.: Donaldson M. Garschagen. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. 453p.


segunda-feira, 14 de abril de 2014

Conto: Ar(v)idez



Ele estava chamando-a de novo. Ou melhor, era como se ele a chamasse e ela ouvisse sua voz enquanto deitava em sua cama. Seus pensamentos sempre pairavam nele, mas havia momentos em que a falta era quase insuportável. Poderíamos chamar isso de saudade, mas era algo quase biológico. Seus lábios estavam secos, rachados e pálidos; sua boca áspera e árida. A secura se confundia com avidez. 

Inquietadoramente, debatia-se na cama e seu alívio era segurar a lembrança que havia ganhado da última vez que se encontraram. Ela apertava o pequeno objeto côncavo em sua mão esquerda com tanta força, que imprimia toda a sua forma na palma da mão. Enquanto isso, fechava firmemente os olhos e desejava estar lá. Fingia sonhar para poder sentir o vento e se lembrar de cada sensação. Fechou os olhos e também tentou chorar, mas seus olhos secos não se molhavam, pois as lágrimas salgadas não viriam acalentar seu coração nesses momentos de secura. 

Abria e fechava as mãos, esfregava-as uma nas outras e nos lençóis. Ao levantar sua mão contra a luz, sentiu que algo estava errado e fora de lugar: ela mesma. Sua mão não era mais a mesma pois parecia enrugada, seca e descamada. Sabia que não era só a mão, já que se sentia seca por dentro. Até mesmo seu coração sentia-se seco. 

Levantou bruscamente. Pensou que um banho poderia resolver, já que a água sempre ajuda a arrefecer seu corpo e acalmar seus desejos. Ligou o chuveiro e procurou não deixar a água muito quente, pois o frio refrescava e fazia-a pensar que estava com ele. A água da ducha batia em suas costas e escorria. Lembrava vagamente do seu toque. Apenas vagamente, porque a água era doce. Doce demais em comparação a ele, que era arredio e selvagem. Ao menos, essa água hidratava, ainda que momentaneamente. E fazia-a se lembrar mais nitidamente...

Era difícil precisar quando essa obsessão havia começado, mas havia alguns resquícios que remetiam à infância, que foi quando se conheceram. A proximidade surgiu mais tarde, nos anos da adolescência. A princípio, era por beleza e diversão. Fotografias guardadas. Ela passou a se vestir para ele. Usava sua cor favorita. Tecidos fluidos, como sua pele. Os ornamentos passaram a ser todos presentes dele. Cada detalhe pensado em sua homenagem, mesmo quando longe.

Havia algo nela que ouvia seu chamado e o compreendia. Entendia que seus mistérios deveriam ser preservados. Respeitava seus limites. Era para ela muito mais que um amor, mas um pai, uma mãe... sua origem primeira. Ele era tão velho quanto o tempo, quanto o mundo. 

A verdade é que ela desejava ser sua filha, mas isso não era possível. Ele a renegara desde que nascera. A culpa não pertencia a nenhum dos dois, mas era impossível ser o que não fora feita para ser. Eles pertenciam a mundos diferentes. Ela não tinha maneiras de sobreviver na sua imensidão. Tinha pulmões que como esponjas se encharcariam de água. Sereias não existiam e, por isso, ela não se tornaria uma. Qualquer tentativa de fuga acabaria com sua morte. E a morte era a única solução para se unirem. 

Desligou o chuveiro e já se sentia um pouco melhor. Pensou que, quando chegasse a hora, deveriam jogar seu corpo no mar. 

Escrito por Renata Rede.

segunda-feira, 31 de março de 2014

Filme e livro: Vale Abraão

Se Emma Bovary fosse portuguesa...


"Subitamente, entregou-se a uma espécie 
de doença que estava enraizada na 
insatisfação profunda do seu ser. 
Julgou que a libertação sexual a ia curar, 
mas durou pouco esse convencimento."pp.71


Vocês se lembram de quando eu falei um pouco sobre o filme O Estranho Caso de Angélica (2010)? Depois disso, tive a chance de assistir a um pequeno curso sobre o diretor, Manuel de Oliveira. Foi nesse curso maravilhoso que descobri sobre o filme Vale Abraão (1993), uma das principais obras do diretor. Esse filme foi baseado no romance homônimo de Agustina Bessa-Luís. Na verdade, a ideia do diretor parece ter vindo primeiro, pois ele tinha vontade de adaptar o romance Madame Bovary, de Gustave Flaubert (resenha aqui), mas outro diretor já estava filmando. Sendo assim, ele pediu para Agustina, sua amiga e escritora, para pensar em um romance baseado no livro de Flaubert. 

Agustina Bessa-Luís publicou o Vale Abraão em 1991 e Manuel de Oliveira adaptou-o para o cinema em 1993. Trata-se de um livro escrito para aqueles que já possuem como parâmetro o romance de Flaubert, pois faz referências diretas a ele. Conta a história de Ema, moça provinciana, que conhece Carlos Paiva, o médico da cidade. Eles se casam sem amor; ela, por desconhecimento, e ele, por sua beleza. Ao se casarem, Ema se muda para o Vale-Abraão, lugar que fica às margens do rio Douro. Ela é convidada para um baile na Casa das Jacas e se deslumbra pela primeira vez com a vida em sociedade e com o luxo. Sua insatisfação aumenta e ela se envolve com diversos amantes, sendo Fernando Osório que mora no Vesúvio principal. Também adquire o vício à vida luxuosa. Ema é uma mulher insatisfeita, propensa ao luxo e aos amantes, assim como Emma Bovary. Por esse motivo, ganha o apelido de Ema "Bovarinha". 

As semelhanças propositais para por aí. A história se passa em Portugal contemporâneo e os conflitos são modernos. Portanto, não temos mais uma Bovary que se vê cercada de amantes por estar em tensão entre o romantismo e o realismo. A Ema portuguesa é Bovarinha porque ela procura uma evasão da realidade por causa de uma grande insatisfação pessoal. Enquanto Emma Bovary de Flaubert procura amantes por desejar encontrar um amor arrebatador como nos livros românticos que lia; Ema do livro de Agustina, é ainda mais insatisfeita e perdida, porque ela não quer mais aquele amante como nos dos livros. Na verdade, Ema não sabe o que precisa para se sentir a salvo do tédio. Isso porque ela está presa entre o querer - ter um grande amor e uma vida de luxo -  e o conforto matrimonial perante a sociedade.

"Tudo era inferior ao seu desejo absoluto e, ao mesmo tempo, tudo lhe parecia inatingível. Tal é a força do desejo que mais imagina do que consome." pp.63

A releitura moderna de Madame Bovary é menos realista e os elementos de insatisfação transbordam das páginas, porque a vida interna da Bovarinha transparece. O livro, por isso, possui muito mais elementos de narrativa e é mais confuso. O romance de Flaubert é apenas um ponto de partida para discutir o papel da mulher na sociedade daquela época, que é feito com muita ironia. Ema é bela - até demais - e também manca. Sua beleza afasta e desconserta os homens, que acabam preferindo mulheres mais simples, como sua empregada, do que sua beleza moderna e liberdade sexual.

Embora eu não vá contar para vocês o final das duas histórias, apesar de Madame Bovary ser um clássico e muita gente conhecer o desfecho, devo dizer que ambas as personagens possuem tragédias semelhantes. Porém, no livro de Flaubert, vemos os problemas materiais - apenas - causando os problemas de Emma. Enquanto no Vale Abraão, Ema Paiva se envolve em sua tragédia por razões psicológicas.




O filme Vale Abraão (1993), de Manoel de Oliveira, é ainda melhor que o livro, pois ele recorta e monta os aspectos mais relevantes da história. Assim,o enredo torna-se muito mais interessante e menos cansativo que o livro. A escolha dos atores foi espetacular. Ema (Leonor Silveira) e Carlos Paiva (Luís Miguel Cintra) acentuaram um viés cômico e irônico ao filme. Além disso, a adaptação de Vale Abraão (1993) deixou a mostra muitas das sutilezas que a escritora colocou de forma muito subjacente e escondida,  Por isso, é mais fácil compreender a história - especialmente, o final - através do filme. 

Eu recomendo o filme Vale Abraão (1993) de Manoel de Oliveira a todos os leitores de Madame Bovary. Pois eu sei que quem gostou do bovarismo de Flaubert pode gostar de ampliar a visão e o ponto de vista com essa Bovarinha portuguesa. Além disso, Manoel de Oliveira é um mestre em adaptações de obras literárias para o cinema. Esse filme é longo e possui cerca de 3 horas de duração, mas acho que vale a pena ver essa releitura feita por um cineasta consagrado. Vale Abraão (1993) não só não deturpará sua visão do livro de Madame Bovary, como acrescentará muitos pensamentos a respeito desta obra. Já o livro de Agustina Bessa-Luís, eu recomendo para quem gostar do estilo de filme e quiser se desafiar com essa releitura moderna e de narrativa mais lenta e difícil. Uma dica que dou é procurar pelo livro na internet, pois paguei cerca de 4 reais no meu exemplar novo. 


Trailer:
 


Resenha por Renata Rede.

Bessa-Luís, Agustina. (1991). Vale Abraão. São Paulo: Planeta do Brasil, 2004. 270p.

domingo, 9 de março de 2014

Resenha: A Cabeça do Santo, de Socorro Acioli


A Cabeça do Santo foi o livro que escolhi dentre os lançamentos do mês de fevereiro da Companhia da Letras. Ele me chamou a atenção porque comecei a ler um pouco do estilo do realismo maravilhoso latino-americano. Este livro de Socorro Acioli foi escrito para o curso "Como contar um conto", ministrado por Gabriel García Márquez, o grande nome do Realismo Maravilhoso. Ao ler a sinopse, interessei-me muito pelo romance da autora por causa do enredo curioso.

O livro conta a história de Samuel, filho de Mariinha, que parte de Juazeiro do Norte rumo a Candeia, para cumprir uma promessa feita à mãe antes de sua morte.  Sob o sol forte, Samuel percorre o sertão à caminho da cidade onde mora sua avó e pai, que nunca o conheceram. Ele chega em Candeia como um maltrapilho e, expulso pela avó, acaba arranjando abrigo dentro da cabeça decapitada de uma grande estátua de Santo Antônio. É dentro da cabeça que os fatos fantásticos começam a acontecer. Enquanto permanece dentro dela, Samuel ouve vozes de orações que as mulheres fazem para o santo. 

Assim, surge a ideia de utilizar as orações das mulheres para unir os casais da pequena cidade. Suas ações dão certo e ele provoca o primeiro casamento. Os boatos sobre a voz dos santos são divulgados na rádio e a pequena e deserta cidade nordestina começa a ser invadida por mulheres apaixonadas que desejam ter seu desejo realizado por Santo Antônio. Samuel, então, passa a ser o porta-voz do santo e procura realizar os desejos da maioria das mulheres. Candeia, a cidade já quase deserta, revive e o comercio volta a florescer com a chegada de tantos curiosos. Contudo, esse sucesso não agrada o ambicioso prefeito da cidade que desejava, ao expulsar os moradores, vender ilegalmente o terreno da cidade.

O personagem de Samuel possui várias funções dentro desse livro. Além de casamenteiro, ele deve procurar pelo pai com a ajuda da avó enigmática; também é instigado por um misterioso canto em uma língua pouco compreensível que ouve dentro da cabeça da estátua.


Por que realismo maravilhoso? O enredo do livro parece se inspirar no realismo maravilhoso porque incorpora o maravilhoso no cotidiano. O fato de Samuel ouvir as orações para Santo Antônio dentro da cabeça oca causa um certo estranhamento, mas é verossímil dentro da história. Ou seja, aquilo que é maravilhoso dentro da história é tido como algo natural. Além da cabeça de santo, vemos o maravilhoso na mãe de Samuel, que sabia o dia em que ia morrer, e na avó que parece possuir poderes mágicos. Esses detalhes maravilhosos contrastam com fatos bastante realistas, e os personagens podem duvidar dos fatos reais, mas acredita-se no maravilhoso. É interessante perceber que um repórter da "cidade grande" vai a Candeia investigar os rumores do santo, mas apenas é investigado o motivo pelo qual a cabeça da estátua não está junto ao corpo, ao invés de investigar os boatos sobrenaturais. Além disso, o livro, que é dividido em 4 partes, possui diversas citações de autores latino-americanos, como o próprio Gabriel García Márquez.

O livro é de leitura fácil e leve, fazendo-nos lembrar de um "causo". A história possui muita brasilidade e cor-local. O enredo não é totalmente linear porque nele acontecem alguns flashbacks que não são claramente explicitados e pedem a atenção do leitor.

Particularmente, acho que a história da cabeça do santo não possui uma relação muito firme com o passado de Samuel. Primeiro, ele faz uma peregrinação de 16 dias, passa fome e é mordido por cachorros do mato enquanto procura seu pai, mas - de repente! -  o enredo passa a focar no lado casamenteiro do protagonista dentro da cabeça do santo. Essa mudança de vontade do personagem passando fome, para aquele que ganha dinheiro e fama, passa a ser um pouco inverossímil e faz com que o livro perca a continuidade. O desfecho também é um pouco apressado demais e não deixa claro a verdadeira motivação dos personagens. Na minha opinião, o livro peca por ser muito curto, pois a história mágica da cabeça do santo que ressoa orações é fascinante, mas precisava ter sido melhor desenvolvida, para poder detalhar as relações e as motivações de cada um desses personagens dentro da trama.

Além disso, como amante de livros, vou falar do objeto em si. Achei a edição espetacular. Como vocês puderam ver nas fotos acima, o que parece uma capa amarela com a cabeça do santo é uma luva que protege a verdadeira capa com imagem do sertão nordestino. A capa tem muita relação com a história e achei muito bem feita, e as páginas amareladas sempre agradam meus olhos e deixam o momento de leitura mais fácil. 

***

Curiosamente, descobri que a história da cabeça decapitada de uma estátua de Santo Antônio realmente existe em uma cidade do nordeste brasileiro, que não se chama Candeia, mas em Caridade. Foi esse caso curioso que inspirou Socorro Acioli a escrever essa história. Nosso país possui cada mistério! 




Acioli, Socorro. A cabeça do santo. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. 168 p.
Este livro foi uma cortesia da editora Companhia das Letras.

quinta-feira, 6 de março de 2014

6 on 6 de março

No projeto 6 on 6 deste mês, não planejei nenhuma temática específica para juntar todas as fotos porque não tive muito tempo. Ainda assim, resolvi fotografar algumas de minhas coisas favoritas, como roupas e chás e filmes. Espero que gostem! 







1 e 2. Vestido: Esse vestido foi minha primeira aquisição da Antix, uma marca favorita de várias amigas minhas. Eu comprei no começo ano passado, mas só agora comecei a usá-lo mais frequentemente. Essa gola é avulsa. Adoro a cor e a temática oriental. A segunda foto pode ser uma referência longínqua ao filme Stoker (2013)?

3 e 4. Dançando no Escuro: Minha cantora favorita é a islandesa Björk. A agenda é do filme Dançando no Escuro (2000), musical arrasador de Lars Von Trier em que ela interpreta Selma, uma deficiente visual explorada pelas pessoas. Gosto de ter referências cinematográficas ao meu redor!

5 e 6. Meus chás favoritos: Algumas amigas minhas pediram, há muito tempo, para eu fazer uma postagem a respeito dos meus chás favoritos. Para quem não sabe, já há muitos anos sou uma bebedora compulsiva de chás e reservo várias manias quanto a isso. Esses da foto são alguns de meus favoritos. Eu adoro chá verde, oolong e preto e não gosto de infusões apenas com frutas e ervas. Também gosto dos meus chás preparados na temperatura certa.

Confiram também o 6 on 6 da Alessandra, Jéssica,  MarcelaRaissa e Viviane.

domingo, 2 de março de 2014

Parceria com a Companhia das Letras


Olá, pessoal! Eu tenho uma novidade para contar em relação ao blog. O Água-Marinha.Net foi aceito para ser um blog parceiro da editora Companhia das Letras. Essa é uma notícia maravilhosa para mim, porque ela é uma das minhas editoras favoritas, por fazer edições caprichosas e por publicar livros - contemporâneos ou clássicos - que são do meu interesse.

O tipo de parceria é muito interessante e benéfico para mim, pois escolherei eu mesma os livros do catálogo de lançamento e farei comentários honestos sobre eles. Desta forma, conseguirei exercitar ainda mais minha escrita e crítica literária, que faço por prazer. 

O primeiro livro que escolhi já chegou! Em breve, escreverei a resenha crítica e colocarei aqui no blog. Espero que vocês acompanhem as resenhas e gostem dos livros que irei escolher!

Acompanhem a Companhia das Letras no Facebook, Twitter e Youtube.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Resenha: O etéreo em "A Última Névoa", de María Luisa Bombal



Acontece, às vezes, de um livro desconhecido me chamar nas estantes da livraria. Esse foi o caso do livro A Última Névoa e A Amortalhada de María Luisa Bombal. Não conhecia nada sobre a autora, mas depois vim a descobrir que ela é foi um grande nome da literatura chilena do século XX. Amiga de Pablo Neruda e Jorge Luiz Borges, a escrita de Bombal foi quantitativamente menor, mas de muita profundidade. Seus temas sempre dizem respeito ao mundo feminino e à diminuição da mulher na sociedade da época. Ela mostra a infelicidade das mulheres que são atadas a vidas infelizes para se adequarem. 

Esse livro compila suas duas novelas, e chamo assim porque são curtas para serem romances, e longas para serem chamadas de contos, "A Amortalhada" e "A Última Névoa".  Trata-se de duas histórias sobre mulheres que estão submersas em mundos fantasiosos. Eu diria que os temas pertencem ao mundo de Tânato e Hipnos, a morte e o sono, respectivamente. A Amortalhada conta a história de uma mulher que está morta em seu próprio velório e narra a vida que levou ao olhar para as pessoas que a vão visitar. Hoje, resolvi fazer uma resenha só da primeira novela, "A Última Névoa", que conta uma história envolta em sonhos, porque achei tão surpreendente a ponto de já ter lido duas vezes. Gostei muito dessa história porque se trata de um livro de temática etérea, em que a realidade se mistura com as brumas do sonho.

"A Última Névoa" conta a história de uma mulher infeliz. Ela vive nesse estado letárgico de tristeza desde que se casou com seu marido Daniel, um fazendeiro, logo após a morte da primeira esposa deste. O casal não é apaixonado um pelo outro e vive em uma situação de obrigação, com ele afirmando a ela que tem sorte de ter feito esse casamento para não "virar uma solteirona enrugada, tricotando para os pobres da fazenda". Sua existência feminina é apagada neste casamento sem amor e sem desejo, e ela tenta imitar a falecida esposa para agradar ao marido. A infelicidade da protagonista não se dá pela vontade de morrer, mas pelo desejo de viver. Essas amarras impostas à mulher causam a sensação de névoa que a sufoca e comprime. 

Sua sensualidade, por mais que seja apagada, jaz latente e começa a despertar quando se banha no açude:
"Não sabia que eu era tão branca e bonita. A água alonga minhas formas, que adquirem proporções irreais. Nunca me atrevi a olhar meus seios; agora os observo. Pequenos e redondos, parecem diminutas corolas suspensas sobre a água. 
Vou me afundando até os joelhos numa espessa areia de veludo. Mornas correntes acariciam-me e penetram-me. Como braços de seda, as plantas aquáticas enlaçam meu torso com suas longas raízes. Beija minha nuca e sobe até minha fronte o hálito fresco da água." pp.20

Certa noite, desperta sufocada e levanta para passear pelas ruas da cidade. No meio das brumas, ela encontra um desconhecido e com ele passa uma inesquecível noite de amor. Essa traição é o que torna sua vida estimulante e assim ela permanece por anos pensando que a vida teria valido a pena apenas por ter vivido aquela noite. Entretanto, suas lembranças se confundem com a imaginação e sua grande dúvida reside no fato de isso ter sido real ou sonhado.

Paralelamente, autora constrói uma oposição dessa vida sonhada pela protagonista em Regina, que é uma amiga do casal. Essa amiga também vive em estado permanente de insatisfação, só que, ao invés de ser tomada pela letargia, é invadida por uma inquietude violenta e toma decisões opostas à passividade da protagonista para procurar uma vida mais verdadeira. A escritora com sua consciência da situação feminina da época consegue nos mostrar que os caminhos estavam todos fechados, independente da posição que a mulher tomasse. 

"A Última Névoa" é um livro em que elementos da água e da feminilidade são predominantes. O etéreo, a passividade, os sonhos e a fragilidade são mostradas de forma belíssima e verdadeira. Fico feliz de ter cedido ao chamado desse livro porque teve relação comigo, com questões de fragilidade e passividade que possuo inerente em mim, e com um momento em que tento juntar todo o animus para prosseguir com minha vida e realizar os meus desejos. 

Por último, quero chamar a atenção para essa belíssima edição publicada pela Cosac Naify, que faz jus à escrita da autora. Todas as páginas do livro são acinzentadas e o meio é mais claro. Simples e bonito, combinando com os temas nebulosos que preenchem toda a escrita de María Luisa Bombal.


Bombal, María Luisa. (1947). A última névoa e A amortalhada. Trad.: Laura Janina Hosiasson. São Paulo: Cosac Naify, 2013.  224p.

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